Política
"Governo tinha a obrigação de ir mais longe", reclama antigo ministro Vieira da Silva
"Do ponto de vista das medidas de apoio às famílias, julgo que o Governo tinha a obrigação de ir mais longe". Quem o diz é Vieira da Silva.
Fotografia: Jorge Carmona
Neste caso Vieira da Silva sugere atribuir também uma subvenção extraordinária para essas famílias.
Em relação às escolhas do Governo, "a natureza desses apoios e a escolha do público-alvo a meu ver não é a mais adequada porque tem deixado de fora uma parte muito importante da população que tem rendimentos muito baixos e que não tem qualquer apoio adicional", defende.
Na opinião de Vieira da Silva esta é uma crise inflacionista e mostra-se muito preocupado: "não existe ainda uma previsão para o momento de inversão desta tendência, e isso é muito preocupante". E relembra que "muitos analistas afirmam que 2027 será ainda um ano marcado por tensões inflacionistas, já que se prevê, talvez com algum alarmismo, uma dificuldade no regresso à normalidade na oferta dos bens energéticos".
Ou seja, "se assim for, é um período longo de pressão inflacionista que atinge as empresas e as famílias de menores recursos".
São também essas famílias a preocupação de Isabel Jonet. A presidente da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares contra a Fome refere que a franja da população mais afetada pelo aumento do custo de vida são, "indiscutivelmente, sem sombra de dúvida, as famílias da classe média baixa".
Porquê? Porque "as famílias mais pobres não andam de carro e o preço dos passes não foi alterado" e explica que "aqueles a que costumamos chamar de remediados têm uma pancada por todos os lados".
"Existe um aumento cumulativo que impacta de uma maneira muito, muito maior, famílias com filhos, famílias mais novas, que ousaram comprar uma casa, ousaram abrir um negócio e que, de repente, não têm capacidade financeira para aguentar tudo isto e não veem alternativa e para onde se vão virar", alerta Isabel Jonet.
Na mesma linha Maria José Vicente alerta: "a situação das famílias é muito mais grave do que podemos pensar porque a habitação tem um peso fundamental nas despesas dos agregados familiares".
A coordenadora-nacional da Rede Europeia Anti-Pobreza explica que "a taxa de risco de pobreza diminuiu para 15,4 por cento, mas, se tivermos em conta a habitação, esta taxa passa para os 26.8 por cento".
"¼ da população ficaria numa situação de carência financeira após liquidar as despesas com rendas, prestações bancárias e serviços básicos como a água e a eletricidade", afirma.
E chama a atenção: "neste contexto, aquilo que são direitos fundamentais podem tornar-se privilégios".
A situação financeira das famílias é também a preocupação de Francisca Guedes de Oliveira. A administradora do Banco de Portugal disse no Consulta Pública que "tem vindo a aumentar o endividamento, quer do ponto de vista do crédito à habitação quer do crédito ao consumo e crédito pessoal. Estes são os sinais de alerta que é preciso acautelar".
Apesar de adiantar que "o incumprimento não tem vindo a aumentar", Francisca Guedes de Oliveira avisa que "estamos numa situação frágil e este aumento do endividamento pode trazer complicações porque é resolvermos um problema hoje que nos vai complicar substancialmente a vida amanhã".
A representante do Banco de Portugal revelou ainda que "tem havido maior procura por taxas mistas. Neste momento mais de 80% dos novos contratos de crédito à habitação são de taxas fixas".
E mais: "os contratos que foram feitos a taxa de juro mista em 2023, estão agora a terminar o período da taxa fixa e estão a entrar no período de taxa variável e estamos a assistir a um conjunto muito grande de renegociações".
"Todos estamos a ser impactados e isso vê-se nas prateleiras"
Gonçalo Lobo Xavier, o diretor-geral da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição, revela que "há um desvio do consumo de carne e de peixe. As pessoas hoje procuram mais os ovos que é uma proteína mais barata. E é visível a meio do mês a procura por conservas".
É por isso que entende que "todos estamos a ser impactados e isso vê-se nas prateleiras, mas tem havido um esforço para que isto não seja sentido de uma forma tão dura".
Porém não deixa de esclarecer: "quando me perguntam «para a semana aumenta o preço dos combustíveis, isso vai repercutir-se de imediato no preço na prateleira na semana seguinte?», não, é evidente que não, mas é inevitável que tantos meses com esta pressão... de facto vem trazer-nos um cenário de elevada incerteza e o que se pede é moderação".
Para mitigar os efeitos do aumento do custo de vida, Gonçalo Lobo Xavier assegura que em relação ao Iva zero "aceitamos o que o Governo nos disser, mas há outros mecanismos de reação mais imediata e estruturalmente mais interessante coo seja apoios à agricultura".
E dá como exemplo apoios para quem está no início da cadeia de valor.
O ministro da Agricultura, diz, "parece que não tem o peso político suficiente, ou não lhe é dado o peso político suficiente, para aprovar e agilizar mecanismos de acesso a verbas financeiras quer da Europa quer do Orçamento do Estado que façam valer a sua posição e para que estes apoios cheguem o mais depressa possível ao início da cadeia de valor".
O programa Consulta Pública é moderado pelo jornalista Frederico Moreno.