Impostos marcaram debate entre Sócrates e Louçã

Os líderes do PS e do Bloco de Esquerda foram os protagonistas do sexto debate televisivo antes das eleições Legislativas. A política fiscal, o desemprego, as medidas para sair da crise e as diferenças ideológicas marcaram o frente-a-frente entre José Sócrates e Francisco Louçã.

RTP /
O debate entre Francisco Louçã e José Sócrates era aguardado com grande expectativa Manuel de Almeida

Grande parte dos 45 minutos do debate foi dedicada à política fiscal, com José Sócrates a acusar o Bloco de Esquerda de querer acabar com os benefícios fiscais na Educação e Saúde e a considerar que essa medida vai prejudicar a classe média.

"Devem ser eliminados integralmente todos os incentivos fiscais aos produtos privados de poupança para a reforma, PPR, e devem ser eliminados integralmente todos os incentivos fiscais às despesas de Educação ou de Saúde, nas áreas em que haja oferta pública", referiu o secretário-geral do PS que citava o programa de Governo do Bloco de Esquerda.

"É a primeira vez que um partido propõe que se eliminem todos os benefícios fiscais, não para os ricos, mas para a classe média que seria penalizada em mais de mil milhões de euros", acusou.

Na resposta, Francisco Louçã referiu que o Bloco de Esquerda pretende "que a Saúde e Educação sejam gratuitas, o que quer dizer que não faz nenhum sentido estar a deduzir fiscalmente aquilo que deve ser fornecidos às pessoas".

"O Bloco de Esquerda não quer que haja uma floresta de benefícios fiscais, nós queremos um sistema simples porque ele é mais justo", frisou Francisco Louçã que acrescentou "nós não queremos um sistema cheio de armadilhas, um sistema cheio de benefícios e de esquinas, porque aí só as pessoas muito informadas é que sabem proteger-se desse sistema".

"Eu quero um sistema simples, é assim a melhor doutrina fiscal", sublinhou.

Louçã acusa Governo de beneficiar a Mota e Engil

O coordenador do Bloco de Esquerda acusou o Governo de entregue a concessão do troço da auto-estrada, entre Oliveira de Azeméis e Coimbra, à Mota e Engil, presidida pelo socialista Jorge Coelho e que a partir do momento da concessão o custo da obra aumentou 500 milhões de euros. Uma acusação negada por José Sócrates que afirmou que o Governo não fez nenhuma concessão.

"A Mota e Engil ganhou um concurso de uma adjudicação da auto-estrada entre Oliveira de Azeméis a Coimbra, por 53 milhões de euros. E assim que ganhou a concurso subiu o preço para 1.174 milhões, ou seja mais 500 milhões de euros", acusou o coordenador do BE.

"Fora eu primeiro-ministro e não pagava ao Dr. Jorge Coelho", acrescentou.

A acusação foi imediatamente rejeitada por José Sócrates que revelou que a adjudicação não tinha sido feita.

"Está equivocado, isso não aconteceu o Governo não fez a adjudicação e a informação que tenho é que as Estradas de Portugal não vão propor que se adjudique", declarou o secretário-geral do PS.

Combate ao desemprego

Outros dos temas em que Louçã e Sócrates discordaram foi com as medidas de combate ao desemprego, com o secretário-geral do PS a defender mais investimento público e o coordenador do Bloco de Esquerda a acusar o Governo de se ter preparado mal para a crise.

José Sócrates defendeu "mais investimento público, para dar mais oportunidades de emprego e para dar mais oportunidades às empresas portuguesas é a pensar no emprego que eu penso no investimento público", e recordou que "quem conhece a história económica sabe que a grande depressão venceu-se com duas medidas fundamentais: baixar as taxas de juro e investimento público"

"Nós estamos a viver uma das crises mais sérias dos últimos 100 anos, isto não é uma situação normal, isto é uma situação absolutamente extraordinária", sublinhou.

Por seu lado Francisco Louçã acusou o Governo de se ter preparado mal para a crise e de o número de desempregados ter aumentado durante os últimos quatro anos e meio.

"Portugal preparou-se mal para a crise porque não se qualificou do ponto de vista do emprego", declarou o coordenador do Bloco de Esquerda que recordou "quando o Engenheiro José Sócrates dizia na campanha anterior que sete por cento de desempregados era a marca de uma governação falhada. Tinha razão".

"Quando chegou ao Governo tinha 412 mil desempregados, quando começou a crise tinha 440 mil e agora temos 517 mil nos números oficiais", enumerou.

Coligação entre PS e BE

José Sócrates e Francisco Louçã demarcaram-se nas respostas a uma possível coligação e preferiram sublinhar as diferenças entre os dois partidos. Sócrates frisou não aceitar que o Bloco de Esquerda tenha escolhido o PS como principal adversário e não a Direita.

"Naturalmente temos culturas políticas diferentes, mas tem-nos afastado também o facto de o Francisco Louçã e o Bloco de Esquerda terem decidido num tempo destes, num tempo de dificuldades e de crises, transformar o PS no seu inimigo principal", acusou.

"Eles acham que o discurso mais agressivo e porventura mais radical seria mais bem recebido, e seria mais popular. Eu acho que isso é um erro", acrescentou José Sócrates.

Francisco Louçã respondeu que "o país sabe muito bem aquilo que nos distingue, e não é uma questão de estilos pessoais é uma questão de resposta de como vemos a crise".

"Eu estou certo que nós vivemos uma devastação económica e que a forma como os mercados foram desregulados, como a criminalidade financeira foi permitida, como esta falta de transparência na economia, de falta de rigor se instalou, facilitou, agravou e tornou dramática esta crise", acrescentou.

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