Legado de Sócrates opõe Costa sem "embaraço" a Seguro "fora da gaiola"
Levado a recuar ao último capítulo da governação de José Sócrates, António José Seguro afiança que teria tentado obter condições diferentes para o resgate financeiro do país. A esta convicção, enunciada em entrevista à Rádio Renascença, o secretário-geral do PS soma a ideia, com o adversário interno por destinatário, de que embora não fuja a “nenhuma parte da história do partido” não trará “nenhum passado de volta”. Da última noite sobressaem também declarações de António Costa à SIC Notícias. O autarca de Lisboa, agora visado por um manifesto pró-Seguro, garantiu que não vive “com embaraço a história” do seu partido. Criticou, depois, “pessoas que passam na vida política” a “ver se ninguém dá por elas”.
A guerra intestina do PS sobe agora de tom com a publicação de um manifesto assinado pelos antigos dirigentes socialistas Henrique Neto, Ventura Leite, Rómulo Machado e Gomes Marques. Em defesa de Seguro. E contra o apelo subscrito por Jorge Sampaio, Manuel Alegre, Almeida Santos e Vera Jardim no sentido de “uma rápida clarificação”. São ásperos os termos do novo texto, que faz esta quarta-feira a manchete do jornal i.
“Fazer voltar ao poder político os mesmos que no PS conduziram Portugal para o desastre é um crime contra a Nação Portuguesa” – é esta a declaração que serve de título ao manifesto.
A meio do segundo parágrafo surge a resposta aos notáveis: “Infelizmente, estas quatro relevantes personalidades do Partido Socialista mantiveram-se quase sempre caladas durante esse período, ou pior, colaboraram com as diatribes do então secretário-geral e primeiro-ministro (…) Nesse período sempre verificámos com angústia (…) que o interesse nacional andou a reboque dos interesses partidários do grupo no poder, sem que isso tivesse conduzido a uma posição tão relevante como a que agora foi tornada pública”.
“Tinha um cuidado na utilização das minhas palavras e do discurso público que hoje deixei de ter, um cuidado para contribuir para uma certa paz no PS e para afirmar a coesão do partido. Como tive oportunidade de dizer na reunião da Comissão Nacional [do passado domingo], hoje sinto-me um pássaro fora da gaiola”, atirou Seguro.
“Recuperei totalmente a minha liberdade para dizer tudo aquilo que penso sobre a situação interna do partido”, carregou.
E foi ao abrigo deste argumento que o líder do PS falou do ocaso da governação de José Sócrates. Em particular, do momento em que o ex-primeiro-ministro partiu para a negociação do memorando com as missões do Fundo Monetário Internacional, do Banco Central Europeu e da Comissão Europeia. Para dizer que, se tivesse estado à frente do processo, seriam outras as contrapartidas.
“O líder do Partido Socialista, tal como entendo que deve ser um líder do Partido Socialista, não enjeita nenhuma parte da história do partido e assume por inteiro o património, mas não trago nenhum passado de volta. Eu estou concentrado no futuro”, começou por afirmar António José Seguro. “Se me disser, se eu negociasse o memorando, se era este o memorando que tinha negociado, claro que não era”, acrescentou.
Na mesma entrevista, Seguro tornou a reprovar os incidentes ocorridos à margem da última reunião da Comissão Nacional do PS, em Ermesinde, onde António Costa foi apupado. Adiante retomaria o repto ao adversário para a realização de debates nas estações televisivas, na antecâmara das primárias socialistas de 28 de setembro.
“Julgo que, se [António Costa] rapidamente aceitar esses debates, as coisas confrontam-se onde devem confrontar-se, no plano das ideias, das propostas e das atitudes políticas. Até agora, tirando a ambição pessoal de querer disputar o lugar, não se conhece uma motivação de projeto político”, censurou.
“O passado, bom ou mau, está feito”
Na SIC Notícias, o protagonista foi António Costa. Entrevistado pelo canal de Carnaxide, o presidente da Câmara de Lisboa tratou de enfatizar que convive bem com o passado recente do PS. O que, na sua perspetiva, nunca aconteceu com a liderança de António José Seguro.
“Não vivo com embaraço a história do meu partido. Há pessoas que passam na vida política para ver se ninguém dá por elas, se passam pelos pingos da chuva, evitando cargos difíceis, e só vão a eleições quando estão ganhas à partida”, verberou Costa, que não deixou de apontar um erro da governação de Sócrates que os socialistas devem assumir: “É que houve muitas vezes excesso de voluntarismo, prescindindo do consenso social para tomar determinadas medidas, ou dispensando consensos políticos para grandes projetos de obras públicas”.
Foi, todavia, à atual direção do partido que o candidato ao cargo de secretário-geral apontou os maiores erros. Um dos mais crassos, sustentou, foi o de “nunca ter sido capaz de se libertar da agenda que o Governo lhe apresentou, tendo andado sempre a discutir coisas pequeninas, se o corte era maior ou menor, se o ritmo de consolidação era maior ou menor”. Outro “grande” erro foi a imposição à bancada do PS da abstenção diante do Orçamento do Estado para 2012.
Foto: Fernando Veludo, Lusa
A direção, lembrou António Costa, “até se opôs a que deputados socialistas recorressem ao Tribunal Constitucional, o que fizeram à revelia da direção, tendo aí obtido ganho de causa”.
Outro erro, no entender do autarca, foi a “impossível reação que a direção do PS teve aos resultados” das eleições para o Parlamento Europeu, “dizendo com grande satisfação que não há solução de governo sem o PS”. “Mas o que as pessoas pedem é que o PS seja a solução de governo, faça a diferença e, para isso, é preciso converter a maioria do contra numa maioria favorável à mudança. A minha ambição para o PS é a de que o partido tenha uma maioria”, reforçou Costa, aludindo à coligação entre PSD e CDS-PP.
“Nós não podemos agora reconstruir a história e há uma coisa que ninguém consegue fazer: libertar-se do passado que tem, porque o passado, bom ou mau, está feito”, insistiria o candidato. “Quando queremos fingir que o passado não existe, nem conseguimos assumir o bom, nem conseguimos condenar o mau. Ficamos apenas numa posição embaraçada. Não podemos viver com fantasmas relativamente ao passado, se queremos construir um futuro credível”, rematou.