Notícia sobre preocupação da "troika" molda discursos

A quatro dias do fim da campanha, a guerra entre PS e PSD centra-se na notícia de que a missão do FMI e da UE estaria preocupada com a possibilidade de Portugal falhar o calendário do resgate financeiro. Pedro Passos Coelho conclui que a troika espera uma mudança de governo, enquanto que José Sócrates diz haver mais vida para além do pacote de austeridade. O CDS-PP quer o Parlamento a trabalhar no verão e à esquerda pede-se a renegociação da dívida.

RTP /
“Eles não podem dizer que o governo tem de mudar, mas, no fundo, é com isso que eles contam”, disse Passos Coelho Tiago Petinga, Lusa

É com “grande preocupação” que alguns membros da missão do Fundo Monetário Internacional (FMI), da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu (BCE) estarão a encarar o risco de o país falhar os primeiros prazos para a aplicação do acordo de resgate financeiro assinado pelo Governo de gestão e subscrito por PSD e CDS-PP. A notícia foi ontem avançada pela SIC. Segundo a estação de Carnaxide, fontes ligadas às negociações consideram que os partidos do denominado arco de governação tardam em designar um “alto-comissário” para colaborar com os diferentes ministérios na preparação das bases de implementação do programa de austeridade. A ideia seria criar condições para que o próximo executivo pudesse agir imediatamente após a tomada de posse.
O mapa da campanha

José Sócrates reparte hoje a campanha socialista entre o Oeste e o Ribatejo, com passagens por Torres Novas, Coruche e Santarém. À noite estará num comício em Leiria.

Já o líder do PSD, Pedro Passos Coelho, percorre o centro do país: Figueira da Foz, Arganil, Miranda do Corvo e Coimbra, onde participará numa “arruada” e num jantar.

O líder do CDS-PP está na Madeira para contactos com a população do Funchal. A agenda de Paulo Portas inclui um jantar-comício no Machico.

A jornada de campanha do secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, começa em Almada, passa por Moura e acaba em Beja, ao passo que o coordenador do Bloco de Esquerda, Francisco Louçã, faz uma visita a uma escola de Lisboa, percorre o Chiado e conclui o dia no Barreiro.

Nos termos do acordo, o novo governo tem até final de julho para apresentar as suas propostas de revisão da Taxa Social Única, para o Código do Trabalho e sobre o setor empresarial do Estado. O calendário foi encurtado na última reunião dos ministros das Finanças da União Europeia. Os novos prazos constam da versão final do acordo, assinada a 17 de maio em Bruxelas.

Entretanto, o dinheiro começa a chegar aos cofres do país - Portugal recebe esta terça-feira a primeira injeção da União Europeia, no montante de 1,75 mil milhões de euros, a que se segue, já amanhã, uma tranche de 4,75 mil milhões.

A Comissão Europeia descrevia ontem as diferenças entre as versões preliminar e final como “acertos” que “não introduzem qualquer alteração significativa”. O “acerto” mais significativo, explicou à agência Lusa o porta-voz para os Assuntos Económicos e Financeiros, prende-se com o capítulo da banca e visou tornar claro que, “a fim de facilitar o processo de alavancagem, as autoridades irão encorajar os investidores privados a manter a sua exposição”.

Amadeu Altafaj Tardio indicou, ainda assim, que “alguns prazos também foram melhor especificados ou ligeiramente alterados em função de novas informações disponíveis”. Quanto às alegadas preocupações com o eventual incumprimento do programa português, o porta-voz do comissário Olli Rehn difundiu hoje um desmentido.

Os compromissos assumidos com o FMI e a União Europeia foram temas incontornáveis na noite de segunda-feira. Do PSD saiu mesmo a conclusão de que a troika conta com uma mudança no poder executivo.

“É com isso que eles contam”
O PSD, afirmou Pedro Passos Coelho, fez o “trabalho de casa” e está pronto “para cumprir o acordo assinado por Portugal”, apesar de o programa comportar agora “prazos mais apertados”. No discurso que proferiu em Darque, Viana do Castelo, o líder social-democrata apoiou-se na notícia das alegadas preocupações da troika para concluir que FMI e UE querem um novo governo.

“Eles não podem dizer que o governo tem de mudar, porque eles não podem ingerir-se na política portuguesa, mas, no fundo, é com isso que eles contam”, sustentou Passos Coelho, para acrescentar que, se “os elementos da UE e do FMI” pensassem de forma diferente, “não teriam dito que os outros partidos que podem ganhar as eleições não nomearam já alguém para se inteirar dos problemas, um alto-comissário que prepare tudo o que é preciso para o dia a seguir às eleições”.

À entrada para o jantar na Quinta do Santoinho, o presidente do PSD prometera fazer “tudo” para cumprir o programa de resgate financeiro. Sem detalhar medidas: “Tenho a certeza de que depois das eleições, se as vier a ganhar, como penso vir a ganhar, a primeira coisa que faremos, uma vez conhecidos os resultados das eleições, é com certeza, com essa legitimidade, procurar inteirar-me de tudo aquilo que for necessário para pôr a resposta portuguesa o mais afinada possível, para que possamos cumprir aquele acordo”.

Resgate “não esgota a agenda da governação”
Em Setúbal, no pavilhão da Naval, a rouquidão de José Sócrates não o impediu de criticar, uma vez mais, o desempenho do adversário laranja. Tão-pouco de garantir que o plano de austeridade imposto pela troika, como contrapartida para um empréstimo de 78 mil milhões de euros, não fecha a porta a investimentos na economia.

“O nosso dever é naturalmente cumprir os compromissos que assinámos, mas, para além disso, há uma infinidade de temas e assuntos que compete ao Governo escolher. Nós temos de continuar a investir na nossa economia e modernizá-la”, afirmou o secretário-geral do PS, depois de defender que o programa de resgate “não esgota a agenda da governação”: “E esses que dizem que está tudo definido não sabem do que estão a falar”.

Num comício em que o antigo comissário europeu António Vitorino fez “um apelo especial” a uma inflexão dos votos de social-democratas “desiludidos com este PSD”, Sócrates insistiu na tese de que “Portugal não precisa de uma liderança instável”. “O que o país menos precisa é de uma liderança política em ziguezague, que não enfrenta oposições, que não tem convicções para prosseguir em frente quando os obstáculos são muitos. O país precisa de uma liderança segura de si e convicta do caminho que há a percorrer”, reiterou o líder socialista.

Já esta manhã, ao iniciar uma ação de rua em Torres Novas, José Sócrates procurou rebater a ideia de que a troika quer uma mudança de governo, acusando Passos Coelho de desrespeitar “o povo”: “O líder do PSD lembrou-se de sugerir que a troika votaria no seu partido, pois esta é a altura de lembrar ao líder do PSD que quem escolhe os governos em Portugal é o povo e o povo ainda não falou. Mas este deslize do líder do PSD, ao sugerir que a troika gostaria que o PSD ganhasse as eleições, vem confirmar tudo”.

Ou seja, para o secretário-geral do PS confirma-se aquilo que Pedro Passos Coelho “já tinha dito no sentido de que estaria pronto a governar com o FMI, que desejava uma aliança com o FMI e que sempre teve a intenção de levar Portugal a pedir ajuda externa”. Por outro lado, o líder socialista considerou “absurda” a “ideia” de que o país esteja atrasado na nomeação de um alto-comissário. “Só há um alto-comissário neste país, chama-se governo português”, frisou.

Sem se alargar na resposta às últimas críticas com epicentro na liderança do PS, Pedro Passos Coelho negou que se tenha apresentado como o candidato preferido da troika. “Eu nunca me apresentei como tal”, resumiu o líder social-democrata no fim de uma visita aos Bombeiros Voluntários da Figueira da Foz.

“Trabalhar todo o verão”
Para Paulo Portas, “as medidas e os respetivos calendários” inscritos no acordo com a troika, a par dos “prazos muito longos que há para formação de governo”, obrigam o Parlamento a “trabalhar todo o verão”. “Basta fazer as contas aos prazos. O Parlamento vai ter que trabalhar em julho, vai ter que trabalhar em agosto, vai ter que trabalhar em setembro, se quer que Portugal seja um país que cumpre os seus compromissos para ganhar margem de manobra para melhorar alguns aspetos deste acordo”, defendeu ontem o líder do CDS-PP. “A nós, CDS, não nos custa. Somos o partido mais produtivo do Parlamento”, reafirmou Portas na Guarda, depois de um encontro com a associação de empresários da região.

À noite, durante um jantar-comício em Oliveira do Bairro, no distrito de Aveiro, Paulo Portas repetiu os apelos ao voto. É “essencial”, segundo o dirigente partidário, que o CDS-PP eleja mais um deputado em 16 círculos eleitorais: “Sempre vos disse que o PS perderia estas eleições. Isso já está definitivamente claro, o que falta saber é qual é o peso que o CDS vai ter”.

“Eu peço aos portugueses que me deem força para defender os mais pobres, puxar pelas pequenas e médias empresas, alterar o Código Contributivo, que castigou os jovens a recibo verde, valorizar a agricultura, finalmente termos uma política de segurança, reformar a justiça a sério, dar autoridade aos professores e não permitir o clientelismo e contrariar o caciquismo”, apelou.

Louçã contra “soluções coloniais”
A renegociação da dívida continua a ser a principal receita que o Bloco de Esquerda contrapõe às medidas enunciadas pela missão de resgate financeiro. Num comício em Coimbra, o coordenador da Comissão Política do partido lembrou os casos da Grécia e da Irlanda para voltar a defender aquela via. A União Europeia, advertiu Francisco Louçã, “pode estar à beira de impor soluções coloniais, grotescamente coloniais, perante um país [a Grécia] cuja economia tem sido devastada com este programa de recessão e de austeridade”.

“Até há quem diga, sobretudo nos meios governamentais alemães, que o passo seguinte deveria ser forçar a Grécia a sair do euro, ou forçar a Irlanda e Portugal a sair do euro. Dessa forma garante-se tudo para os credores e o desastre total para o povo”, prosseguiu Louçã, acrescentando que “daqui a um ano estas medidas só garantem que Portugal estará a pedir um segundo empréstimo com uma dívida maior, com mais dificuldades”: “E por isso a realidade grega entra todos os dias nesta campanha”.

Horas antes, após um almoço com estudantes nas cantinas da Universidade de Coimbra, Francisco Louçã alertara já para a “espiral da dívida” que “arrasta” a Grécia e a República da Irlanda “para a incompetência económica e para a incapacidade de responder perante os seus povos”. “Essa é mais uma razão para insistirmos na renegociação da dívida, para que baixem os juros”, repetiu.

Comunistas contra a “troika nacional”
Em Santiago do Cacém, diante de duas centenas de apoiantes reunidos no auditório António Chainho, Jerónimo de Sousa descreveu PS, PSD e CDS-PP como a “troika nacional”, recorrendo mesmo a uma canção popular: “Juntaram-se os três à esquina a tocar a concertina, a dançar o solidó. Eles até substituem o , o li e o pelo FMI, pela Comissão Europeia e pelo Banco Central Europeu”.

O secretário-geral do PCP garantiu que os deputados eleitos pela CDU tratarão de apresentar, no Parlamento, uma proposta legislativa com vista ao aumento do salário mínimo nacional e assim “levar a que a República cumpra um compromisso” assumido com os trabalhadores. Lembrando que o Governo de José Sócrates se comprometeu no início do ano, em sede de Concertação Social, a atualizar o salário mínimo, Jerónimo de Sousa sublinhou que nada foi concretizado. Isto quando o prazo para adotar a medida termina este mês. O dirigente comunista considera ficar assim demonstrado que os signatários do acordo com a troika se “anteciparam” na aplicação das medidas de austeridade, “congelando até o salário mínimo”.

Jerónimo referiu-se ainda a quem tem “capacidade para ajudar a salvar o país da situação em que se encontra”, propondo-se fazer chegar a mensagem dos comunistas a “uma massa imensa de patriotas e democratas”. Citou, por último, o poeta António Aleixo: "vós que lá do vosso império/ prometeis um mundo novo/ calai-vos, que pode o povo/ qu'rer um mundo novo a sério".
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