Oposição vê “falsa serenidade” no tom de Sócrates
A prestação do líder do PS na Grande Entrevista da RTP deixou patente uma "falsa serenidade" que foi incapaz de esconder "uma habitual arrogância", sintetiza a direcção do PSD. PCP e BE contestam a estratégia de bipolarização das legislativas, colocando José Sócrates e Manuela Ferreira Leite no mesmo plano, enquanto o CDS-PP viu "uma entrevista para as aparências".
O dirigente social-democrata considerou mesmo que o líder socialista "persistiu no desrespeito aos portugueses, ignorando as dificuldades do dia-a-dia".
Na antecâmara da Grande Entrevista, Manuela Ferreira Leite acusara José Sócrates de "tentar assustar" o país, ao sustentar que o programa eleitoral do PSD abre caminho a uma privatização da Segurança Social, e de prosseguir um modelo de desenvolvimento "assente nos grandes grupos económicos e no abandono do tecido produtivo português, que são as pequenas e médias empresas".
Durante uma sessão pública em Faro, a líder social-democrata instou ainda o primeiro-ministro a "não assustar as pessoas, porque as pessoas já estão suficientemente assustadas com aquilo que fez".
A jornada social-democrata ficou também marcada pelo discurso de José Pacheco Pereira no arranque da pré-campanha em Santarém. O cabeça-de-lista do PSD por aquele círculo acusou os socialistas de visarem "regular tudo e todos, controlando a comunicação social pública de forma escandalosa ao serviço da propaganda e tentando interferir na privada, vigiando os cidadãos comuns".
"Uma entrevista dúplice"
Também o CDS-PP divisa no tom ensaiado por José Sócrates uma tentativa de domar a imagem de "um primeiro-ministro arrogante".
"Foi uma entrevista dúplice e sobretudo para as aparências. Foi uma entrevista entre o delicado secretário-geral do PS em campanha e o primeiro-ministro arrogante", reagiu o deputado Nuno Magalhães.
O CDS-PP dedicou ontem mais uma jornada de pré-campanha ao tema do emprego. Paulo Portas defendeu que o Estado deveria propor às empresas a contratação sem termo de um desempregado, atribuindo-lhes como incentivo o remanescente do subsídio de desemprego ou do subsídio social de desemprego que o trabalhador receberia se permanecesse inactivo.
"Acho que é uma ideia boa e é um grande incentivo para que as empresas contratem gente, é muito mais útil porque significa financiar uma oportunidade de emprego em vez de financiar a continuidade do desemprego", defendeu o presidente do CDS-PP.
Diferenças entre PS e PSD "não existem"
No momento de avaliar a entrevista de José Sócrates, o deputado comunista António Filipe considerou que o secretário-geral socialista falhou em toda a linha na tentativa de traçar uma linha de separação ideológica entre PS e PSD.
Sócrates reafirmou ontem que as actuais lideranças do PS e do PSD têm "duas visões muito diferentes do Mundo" e preconizam "dois sistemas de valores políticos diferentes". Disse também que, a 27 de Setembro, os eleitores vão ser chamados a escolher entre "duas pessoas diferentes e dois programas diferentes".
"Foi uma entrevista em que o primeiro-ministro procurou salientar diferenças relativamente ao PSD que manifestamente não existem em questões que são essenciais", reagiu António Filipe.
O secretário-geral do PCP trouxe ontem para a primeira linha da actualidade política a agenda da CDU para a campanha eleitoral, um percurso que começa dia 13, em Évora, com "um grande comício" e termina em Braga.
Numa achega à presidente do PSD, que abdicou dos comícios de campanha, Jerónimo de Sousa criticou o que disse ser uma opção "muito empobrecedora da dimensão democrática". Os comícios, defendeu o dirigente comunista, são "um bem para a democracia": "Admito que alguns tenham dificuldade em fazer iniciativas com esta grandeza e com esta natureza, mas é bom para a democracia".
"Olhar para trás"
"Só há dois partidos que podem ganhar as eleições e duas pessoas que podem ser primeiro-ministro". Foi com esta frase, lançada durante a Grande Entrevista da RTP, que José Sócrates colocou a ênfase na bipolarização do processo eleitoral que se avizinha. Uma ideia que o coordenador do Bloco de Esquerda, Francisco Louçã, se recusa a aceitar.
"Nos últimos 18 anos, ou Manuela Ferreira Leite ou José Sócrates, um dos dois esteve no Governo", lembrou ontem Louçã durante um comício em Castelo Branco. Para de imediato indagar: "Como é que nos diz o primeiro-ministro em funções que as únicas opções são olhar para trás, para os 18 anos passados, e continuar a fazer o mesmo?"
Louçã acusaria ainda socialistas e sociais-democratas de pretenderem acabar com o Serviço Nacional de Saúde. Se Manuela Ferreira Leite "quer avançar na privatização" do sistema, José Sócrates imita a tendência ao deixar a privados a administração de novos hospitais por um período de três décadas.
"Os ricos passariam a ter uma saúde de qualidade e os pobres uma saúde de misericórdia", alertou o dirigente bloquista. Na óptica de Francisco Louçã, o "grande problema" do país "é que há um polvo de negócios que tem governado o país e vai usando para si aquilo que é de todos".