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Oposição volta-se para Relvas após demissão da Direção de Informação da rádio pública

A demissão em bloco da Direção de Informação da RDP, na sequência do caso do jornalista Pedro Rosa Mendes, leva o PS a pedir a audição urgente do ministro dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, na comissão parlamentar de Ética, onde o caso é acompanhado. Entre a Oposição, sobe de tom a exigência de explicações da tutela. O BE fala de um aparente “caso de censura”. A maioria queixa-se de “teatro político”. O autor da crónica crítica do regime de Angola e do programa da RTP Reencontro, que antecedeu o fim do espaço de opinião Este Tempo, vê os últimos acontecimentos como um “caso bastante infeliz de pagar o justo pelo pecador”.

RTP /
“Talvez estejamos aqui num caso bastante infeliz de pagar o justo pelo pecador”, reagiu o jornalista Pedro Rosa Mendes RTP

O PS, afirma Inês de Medeiros, “vê com muita preocupação” os desenvolvimentos do caso de Pedro Rosa Mendes. E o pedido de demissão da Direção de Informação da RDP, aceite pelo Conselho de Administração da RTP, constituiu, para o maior partido da Oposição, “mais um passo para a confirmação das piores suspeitas”.

“O comunicado de demissão, que obtivemos da própria Direção, relaciona diretamente com o final do programa Este Tempo e, aliás, fala de tudo o que se sucedeu ao fim dessa emissão. Agora vamos chamar o próprio ministro [dos Assuntos Parlamentares], porque achamos que a situação começa a atingir pontos de grande gravidade”, sublinhou a deputada socialista, ouvida pela rádio pública.

Para Inês de Medeiros, impõe-se esclarecer “se houve de facto uma ingerência direta e como é que ela se fez”: “Achamos que, caso tenha havido, toda a gente tem que tirar consequências disso. Não é só a Direção de Informação”.
“Pagar o justo pelo pecador”
Em declarações à agência Lusa, Pedro Rosa Mendes descreveu entretanto a demissão da Direção de Informação da rádio como um “caso bastante infeliz de pagar o justo pelo pecador”. E reiterou críticas ao diretor-geral de Conteúdos da RTP, Luís Marinho: “Caiu a Direção de Informação, mas esse não era o fim da história, nem é. A história é explicar-se como é que aconteceu e como é que um diretor-geral pode tomar decisões desse género. Falta explicar isso”.“Gesto de bom senso”

A Comissão de Trabalhadores da RTP considera que a demissão da Direção de Informação (DI) da RDP “foi o primeiro gesto de bom senso feito pelas instâncias responsáveis da rádio desde a eclosão do caso Rosa Mendes”.

“Essa demissão só pecou por tardia. Ela foi conhecida duas horas depois de serem exigidas explicações à DI, por expressiva votação de um plenário da redação da rádio. Era aqui necessária uma posição de princípio e os jornalistas da rádio tomaram-na”, lê-se num comunicado ontem emitido.

“A CT manifesta a sua solidariedade aos jornalistas da rádio e saúda-os pelo exemplo de coragem que nos deram a todos”, conclui a estrutura.

A Direção de Informação  liderada por João Barreiros adianta, por sua vez, em comunicado ter pedido a demissão após os “últimos acontecimentos relativos ao programa Este Tempo” e “todos os episódios que se seguiram à sua anulação”. Os responsáveis demissionários deixaram um elogio aos jornalistas da rádio por terem dado “provas inequívocas da sua independência e isenção, executando com rigor e profissionalismo o seu trabalho”.

A demissão foi conhecida depois de os jornalistas da RDP, reunidos em plenário, terem exigido que fossem retiradas “de imediato consequências claras das contradições internas e da forma como foi gerido” o caso de Pedro Rosa Mendes.


“Em nenhum momento esteve em causa a honestidade e a integridade profissional da redação da RDP nem da equipa da Direção de Informação”, ressalvou o jornalista, para acrescentar que, “com intenção ou não de alguma das partes envolvidas”, há “um diretor-geral sozinho com o seu ministro da tutela e um ministro da tutela sozinho com o seu diretor-geral”.

Rosa Mendes espera que “um dos dois consiga assumir aquilo que se passou” com o programa Este Tempo.

Numa crónica emitida há duas semanas pela Antena 1, Pedro Rosa Mendes considerou que, no programa da RTP Reencontro, gravado na capital angolana, “desfilaram, durante duas horas, responsáveis políticos, empresários, comentadores de Portugal e de Angola, entre alguns palhaços ricos e figuras grotescas do folclore real”.

“O serviço público de televisão tem estômago para muito, alguns dirão que tem estômago para tudo, mas o reencontro a que assistimos desta vez foi um dos mais nauseantes e grosseiros exercícios de propaganda e mistificação a que alguma vez assisti”, reprovava então o jornalista.

O diretor-geral de Conteúdos do operador público rejeitaria, posteriormente, a acusação de “mais pura censura” feita por Rosa Mendes.

Em mensagem de correio eletrónico remetida às redações, Luís Marinho argumentaria que a decisão de pôr termo ao programa Este Tempo fora tomada “há várias semanas” e que o Conselho de Administração da empresa “nunca” o abordara “sobre este assunto, muito menos manifestando qualquer desagrado pela crónica referida”.
“Censura politicamente orientada”

Na passada quarta-feira, a partir de Bruxelas, onde participou numa conferência do Parlamento Europeu sobre a austeridade e os seus reflexos na liberdade de imprensa, Pedro Rosa Mendes reiterou a acusação de que Luís Marinho reconhecera não ter gostado da crónica dedicada ao programa da RTP em Luanda. Uma posição que teria sido confirmada na terça-feira pelo diretor-adjunto de Informação da RDP, Ricardo Alexandre, perante a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC).

À Lusa, Luís Marinho rebateria no mesmo dia as declarações do jornalista, classificando-as de “profundíssima mentira”: “O senhor Pedro Rosa Mendes é um ficcionista. O Pedro Rosa Mendes tem um problema com a realidade. A nossa empresa é uma empresa livre e estamos muito habituados a crónicas e notícias contrárias às decisões da própria empresa”.“Foi um bom programa”

Em entrevista à Antena 1, transmitida na manhã de quinta-feira, o ministro dos Assuntos Parlamentares não quis opinar sobre o fim das crónicas do programa Este Tempo. Sobre a emissão especial de televisão montada em Angola, Miguel Relvas disse que “foi um bom programa”.

“Em média, o programa Prós e Contras, que é aquele que é transmitido naquele dia e àquela hora, tem uma audiência média de 310 mil espectadores. Aquele programa teve 640 mil. Sabe porquê? Porque os portugueses que não vivem na esquizofrenia de alguns, os portugueses que não vivem dos dinheiros do Estado, os portugueses que querem ter esperança, os portugueses que querem ter emprego, os portugueses que querem ter futuro querem uma estratégia para o país”, respondeu o governante à editora de Política da rádio pública, Maria Flor Pedroso.

Quanto à decisão de acabar com o espaço de opinião, Miguel Relvas atalhou: “Não sei, porque não as ouço. Nunca ouvi as crónicas. Não tenho opinião sobre isso, como também não tive opinião sobre o programa [Reencontro]. Fui convidado a participar, como já participei em três ou quatro Prós e Contras, como estou aqui a participar”.


O caso da suspensão do programa de opinião da Antena 1 esteve já ontem em discussão na Assembleia da República, por iniciativa do Bloco de Esquerda. O deputado João Semedo concluiu que há “sérios indícios de que estamos perante um caso de censura politicamente orientada”, depois de Pedro Rosa Mendes “já ter visto terminados os seus contratos com o Instituto Camões e com a agência de notícias Lusa já com o PSD e o CDS a governar”.

Pelo PSD, a deputada Francisca Almeida acusaria o partido de Francisco Louçã de estar a fazer aproveitamento político.

“Qual foi o contributo do Bloco de Esquerda para este conjunto de audições? Zero. O Bloco de Esquerda não requereu uma única audição sobre esta matéria, não sentiu necessidade de esclarecimento, pelo contrário. Prefere este teatro político, prefere utilizar a declaração política para correr atrás da agenda mediática, ao invés de pugnar pelo cabal esclarecimento dos factos”, condenou.

“Olhe que o PSD, em matéria de coerência quanto ao respeito dos valores da liberdade de imprensa, quando está no governo e quando está fora do governo, tem muito que se lhe diga. É bom não atirarem pedras aos telhados dos vizinhos. Quer que eu lhe lembre alguns episódios? Marcelo Rebelo de Sousa, TVI, Governo de Pedro Santana Lopes. Quer mais? Central de informação de Morais Sarmento. Veja lá, senhora deputada, não atire pedras aos telhados dos vizinhos”, devolveu João Semedo.

Mais tarde, o deputado do Bloco de Esquerda diria que a demissão da Direção de Informação do serviço público de rádio é “mais uma razão” para que se reclame “toda a transparência, todo o rigor na explicação de um caso que parece evidentemente um caso de censura”.
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