Passos Coelho explica "o tempo dos sacrifícios" a revista francesa

Paris, 15 jul (Lusa) - O primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, defendeu um "contrato social" a par da reforma do mercado de trabalho numa entrevista a uma revista francesa sobre "o tempo dos sacrifícios". Numa entrevista à revista Politique International - realizada a 07 de junho e publicada no número de Verão da publicação, que este fim-de-semana chega às livrarias francesas -, Pedro Passos Coelho mostra-se "otimista" em relação a Portugal conseguir alcançar mais cedo, e ir mais além, do que os objetivos fixados pela ´troika´ de instituições internacionais.

Lusa /

"Podemos ir mais longe sem com isso agravar a cura de austeridade imposta aos portugueses há um ano", afirma o primeiro-ministro, entrevistado pelo jornalista e escritor Michel Faure, especialista de Espanha e América Latina.

A entrevista ocupa oito páginas da revista, sob o título "Portugal: o tempo dos sacrifícios".

Apresentado como "liberal num país que não o é", Pedro Passos Coelho é descrito como "um novato na política", atendendo à sua carreira de "uma década no mundo dos negócios, como consultor de várias empresas portuguesas".

Os objetivos fixados pelo primeiro-ministro português "causam admiração mas também ceticismo", escreve Michel Faure, que sublinha o contraste das declarações de Pedro Passos Coelho com as projeções "bastante negativas" de várias instituições, incluindo do Banco de Portugal.

A entrevista à Politique International realizada dois dias depois da vitória do PSD nas eleições legislativas e numa altura em que Pedro Passos Coelho se ocupava da formação do governo, "uma tarefa que dá muito trabalho" como ele próprio comentou.

Pedro Passos Coelho insistiu nessa entrevista que Portugal precisa de recuperar rapidamente a confiança dos investidores estrangeiros e acredita que "uma parte da procura interna vai estagnar mas podemos esperar que um aumento da procura externa nos oferecerá uma compensação em termos de receitas"

Uma das condições, acrescentou o primeiro-ministro, é a "reforma do funcionamento da justiça", recordando que "há atualmente dois milhões de processos legais em espera".

O chefe do executivo marcou, por outro lado, a diferença entre a situação portuguesa e a crise que a Grécia atravessa há um ano.

"As nossas situações não são idênticas. Nós, é verdade, também gastámos a mais e fizemos investimentos pouco produtivos mas as nossas contas são transparentes", declara o primeiro-ministro.

Pedro Passos Coelho acrescenta que "quatro em cada cinco eleitores, quer tenham votado no PSD ou noutros partidos, deram o seu aval ao programa de austeridade acordado entre a ´troika´ e o governo precedente".

"Não, a nossa situação não tem origem cultural, é apenas o resultado de políticas inadaptadas", respondeu entretanto o primeiro-ministro a uma sugestão do entrevistador de "algo de mais profundo", como uma dependência em relação ao Estado, para explicar a situação portuguesa.

O primeiro-ministro pretende realizar "reformas sociais mais ambiciosas do que as que foram encetadas", incluindo "reformar o mercado de trabalho no sentido de maior flexibilidade", uma das exigências da ´troika´, que o novo governo quer levar "mais longe" através da concertação social.

"Penso num contrato social que envolva o governo, o patronato e os sindicatos", explicou, insistindo que o seu governo "defendia uma certa flexibilidade na escolha dos meios a pôr em prática" os compromissos assumidos com a ´troika´.

Pedro Passos Coelho explicou também que usará "prudência a conduzir as privatizações".

"Sabemos bem que os monopólios públicos têm uma tendência irritante para se transformarem em monopólios privados uma vez privatizados, o que não contribui nem para a competitividade nem para o crescimento", apontou.

O primeiro-ministro defende, na mesma entrevista, que "o Estado tem que respeitar as empresas das quais é cliente e deixar de se comportar como mau pagador. Parece-me o mínimo honrar as faturas num prazo máximo de 50 dias", afirmou.

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