Pelos trilhos do Avante: assim se faz a festa do Partido Comunista Português

Comemora-se o 40º aniversário da Constituição da República Portuguesa no ano do também 40º aniversário da Festa do Avante. Na Atalaia trabalhou-se durante meses para assegurar o sucesso dos três dias de festa que agora começam num espaço alargado. São gentes de todas as idades e de todo o país, que asseguram a realização da maior festa político-cultural do país.

“Isto era autenticamente o Tarrafal. Agora de Tarrafal não tem nada”. O paralelo é feito pelo camarada Brites para ilustrar o trabalho que tornou possível a expansão da Festa do Avante à Quinta do Cabo.

Talvez seja exagerado comparar o estado da quinta, adquirida em 2014 pelo PCP, com o campo de concentração do Estado Novo – local onde, aliás, o PCP perdeu vários dirigentes, nomeadamente o secretário-geral Bento Gonçalves.

Mas que não sobrem dúvidas do trabalho ali realizado e de como a Quinta do Cabo se transformou. Nas vésperas da Festa do Avante, tudo parece um espaço único como se sempre tivesse sido assim. Para trás ficam os tempos nómadas de uma iniciativa que já passou por Lisboa, Jamor, Ajuda e Loures e que assentou arraiais na margem sul em 1990.

“Já fomos corridos de todo o lado. Deste sítio não nos tiram mais. Isto foi pago por nós e continua a ser pago por nós”, frisa o camarada Brites, que interrompeu o trabalho para nos dar a sua visão do Avante e da sua história.

“Correram com a gente”, afirma, numa referência às polémicas de outros tempos quanto à localização da icónica iniciativa, sintetizadas em 1989 no discurso de Álvaro Cunhal.

“Estivemos na FIL, tiraram-nos a FIL. Fomos para o Jamor, e como havia muito mato, muitas pedras, diziam: ‘os comunistas vão enterrar-se no Jamor, não vão fazer a Festa’”.

Para o histórico dirigente comunista, tinham tentado ainda “enterrar” os comunistas e a Festa do Avante na Ajuda. A iniciativa comunista transitaria depois para Loures, antes de ser comprada a Atalaia.



“Já não nos podem tirar daqui”, insiste Antero, com os pés em propriedade do Partido Comunista Português. Em 1989, Cunhal tinha apresentado a Atalaia como “um terreno bonito, formoso, junto ao rio, que tem urbanização”.

As qualidades do local mantêm-se, mas o espaço é agora maior, como se comprovará do alto da regressada Roda Gigante.
"Nem acreditamos como conseguimos"
O discurso do histórico dirigente comunista foi feito muito antes da jovem Inês nascer. Aos 14 anos, apenas conheceu a Festa do Avante na Atalaia, na qual participa “desde bebé”. O bichinho da festa comunista chegou-lhe pelos pais.

A jovem não acompanhou as primeiras lutas do partido, mas os livros trouxeram-lhe conhecimento. Confia no partido “que apoia sempre os trabalhadores e o povo” e participa na construção da festa.



A pouco mais de 40 horas da abertura das portas, ultimam-se pinturas no novo espaço infantil, como se comprova pelos pincéis e pelas manchas de tinta na roupa e nas pernas.

“É tudo trabalho de equipa! Trabalhamos todos e, chegados ao final, quase nem acreditamos como conseguimos fazer isto sozinho”, explica, com o orgulho de quem já conta muitos anos nestas andanças.
"Acabamos uma, começamos a outra"
A festa de 2016 começou a ser pensada mal acabou a edição de 2015. As “jornadas de trabalho” para a construção do espaço tiveram início ainda em junho.

As estruturas nascem do “trabalho militante e voluntário”, contando o partido perto de dez mil dias de trabalho de simpatizantes e militantes desde junho. Só no sábado perto de duas mil pessoas estiveram na Atalaia, avança a direção da festa.

“Há camaradas que dedicam parte das suas férias a vir para o terreno construir a festa”, afirma Alexandre Araújo, membro do comité central do partido e da organização da festa. Contam-se ainda muitos fins de semana ao serviço do partido, para garantir os três dias de festa. Todos asseguram as mais distintas tarefas.

Que o digam Francisco Palma e Aurora Bargado, ambos artistas plásticos, para quem é dia de pintar aquele que será o balcão de venda de obras de arte no espaço central da festa. “Fazemos parte da comissão organizadora do espaço de arte. Logo, colaboramos também na conceção do próprio espaço”, explica Francisco.



No espaço dedicado às artes plásticas, o destaque vai este ano para a gravura, com oito dezenas de obras. O local recebe ainda uma exposição com desenhos do arquiteto Francisco da Silva Dias. A Festa do Avante é também uma forma de a arte chegar a quem nem sempre a procura.

“A grande maioria do público não está habituada a artes plásticas. Esta é também a importância do Avante: é o evento artístico mais democrático”, acredita Francisco. Uma diferença que exige outro cuidado na realização das obras apresentadas: “tentamos que sejam de impacto imediato”.

A arte fica exposta ali mesmo, no espaço central da festa. Nas redondezas encontram-se ainda o tradicional Café d’Amizade, o Cineavante, espaços de debate e conversa, uma exibição relacionada com as conquistas do PCP ao longo dos últimos meses e a precariedade laboral.



A seguir ao Pavilhão Central, encontra-se o Espaço Criança, que contará com atividades para os mais novos. Algumas das quais são dinamizadas pela jovem Inês. O tempo passa mas continuam a emoção e os arrepios, aos quais se associam as memórias de infância.

“Lembro-me sempre de dançar a Carvalhesa em pequenina e içar a bandeira”, recorda, com o jeito de quem transporta já o amor e a confiança no Partido Comunista Português.

Para além dos hinos comunistas, a animação musical faz-se até domingo ao som de Xutos e Pontapés com Paulo de Carvalho, Ana Moura, Carlão, Marta Ren, Sérgio Godinho com Jorge Palma e tantos outros. Somam-se ainda os ranchos, o teatro, as músicas do mundo e das regiões nacionais e o cinema e os discursos dos dirigentes comunistas.



“É um grande espaço de liberdade, convívio, tranquilidade, onde se pode ir do Minho ao Algarve, às ilhas e aproveitar a gastronomia de cada uma dessas regiões”, sublinha o organizador Alexandre Araújo.

Terminada a viagem pelo território nacional, avança-se para o Espaço Internacional, onde marcam presença partidos comunistas e organizações progressistas de todo o mundo, nomeadamente das ex-colónias.

As então designadas províncias ultramarinas não serão certamente esquecidas por Altero e Brites. Combateram na guerra colonial tendo sido, pelas palavras do camarada Brites, verdadeiros “bichos” na Guiné.

Aos 68 anos estão já reformados. Não descuram o passado, a luta contra o capitalismo e os cortes na reforma, mas sempre com boa disposição.



O tom mantém-se num curto diálogo trocista e bem-disposto, antes de os dois regressarem à missão. Fala-se de “Coelho”, mas também de “Cavaco”, procura-se quem “roubou” a pensão.

- Não foi aquele que não era bem o menino Jesus?
- Quem, o Coelho?
- Coelho… então mas Coelho é bom com arroz?
- Foi o Coelho e um velho que já estava jarreta… o Cavaco Silva…


A conversa chegará ainda a Mário Soares e Marcelo Rebelo de Sousa, habitual frequentador da festa. “Toda a minha gente é bem-vinda aqui. Isto é uma festa para o povo, não é para rico ou para pobre”, esclarece. Fica o convite, chegando também a hora de voltar a pegar nas ferramentas e regressar à faina.

“São muitas horas de trabalho para apenas três dias de festa”, acaba por lamentar Altero ao despedir-se. Mas move-o o “orgulho em ser comunista”, acrescenta, de ancinho na mão, já de regresso à missão.

Fomos visitar a Quinta da Atalaia a dois dias do início da Festa do Avante, que celebra este ano o seu quadragésimo aniversário. 


Fotografias - Pedro A. Pina