41 anos do 25 de Abril
Quando o PPD usava o vocabulário marxista na Constituinte
Quem os viu e quem os vê: todos os partidos representados na Constituinte lançaram, num momento ou noutro, tonitruantes proclamações anticapitalistas e adoptaram a chamada “langue de bois” do marxismo. Para citar exemplos, só nos deparamos com o embaraço da escolha.
Sinal dos tempos, no decorrer do PREC (Processo Revolucionário Em Curso) até os partidos de direita chegaram a dizer-se mais socialistas que os de esquerda.
Ao contrário do que Rosa Luxemburg recomendara ao seu Partido Social-Democrata, não eram os deputados constituintes a "falar pela janela", para serem ouvidos na rua; era a rua a "falar pela janela" e a ser ouvida, e imitada, nas mais improváveis bancadas parlamentares.
Não faltam, por exemplo, citações de deputados do actual partido de Passos Coelho, então PPD, a darem ao PCP e à UDP lições sobre o que seria o leninismo bem entendido, com todos os seus méritos, de aparência - na altura - consensual.
Quando o PPD homenageava LenineAssim, em 7 de Agosto de 1975, empreendeu o deputado do PPD Gonçalves Sapinho invocar o bom exemplo de Lenine contra os Sapinho (PPD)
"Contrariando a filosofia de Lenine, o PCP, em vez de se ter preocupado em conquistar o povo para a revolução, lançou-se, feroz e sofregamente, na conquista do poder - puro estalinisimo".
comunistas portugueses. Estes, dizia, não tinham assimilado a herança do dirigente bolchevique, mas tão-somente a sua corruptela estalinista.
Especialmente irónica era a circunstância de Sapinho desenvolver estas considerações na sequência de azedas trocas de palavras que, nos dias anteriores, mantivera com a bancada comunista, depois de esta o ter acusado de participar activamente no assalto a um centro de trabalho do PCP.
Depois, em 16 de Outubro, o também popular-democrata Artur Cunha Leal invocava o exemplo bolchevique contra os comunistas portugueses: "Lenine tinha efectivamente razão, já que a conquista dos lugares está bem longe de significar a conquista das massas".
Cunha Leal (PPD)
Quando é que o sr. general Otelo Saraiva de Carvalho deixará de sonhar poder vir a ser o Fidel Castro da Europa (...) para o que aliás lhe faltará sempre grandeza de alma, compostura intelectual, coerência de comportamento, passado de luta em prol da democracia e da liberdade e temperamento de chefe"?
E era também o mesmo Cunha Leal que contrapunha à infantil megalomania de Otelo o exemplo de Fidel como digno de ser seguido.
Recorde-se que Otelo voltara de uma visita oficial a Cuba com um entusiasmo infrene, e que dera livre e público curso às fantasias do papel de "Fidel Castro da Europa", que alegadamente poderia ter sido o seu, se tivesse feito mais algumas leituras.
Se as originalidades de Otelo foram, em geral, criticadas pelos partidos da direita, o ângulo de crítica escolhido por Cunha Leal não deixa de revestir alguma representatitividade para o modo de se expressar de uma parte dessa direita.
Direita com os trabalhadores, contra os patrões
Em termos políticos mais imediatos, em 10 de Setembro, o deputado do PPD Furtado Fernandes ia buscar argumentos ao reportório marxista para combater a lei da unicidade sindical, propugnada pelo PCP.
Assim, Furtado Fernandes citava o constituinte comunista Vital Moreira, quando este afirmava numa obra de referência anteriormente publicada que “o monopólio da representação sindical é uma das características do corporativismo".
Mário Pinto (PPD)
“O lock out não podia de modo nenhum ser considerado uma arma lícita como resposta ou contra-resposta à arma da greve".
Basílio Horta (CDS)
"No programa do CDS, nas nossas declarações, sempre afirmámos que não reconhecemos o lock out como um direito que pudesse sequer ser comparável ao direito de greve”
No que diz respeito aos direitos à greve e ao lock out, respectivamente arma operária e patronal, todos os partidos, da esquerda à direita, diziam tomar partido pelos trabalhadores.
O deputado do PPD Mário Pinto manifestou, nomeadamente, a concordância do seu partido com a proibição do lock out, sublinhando a assimetria que tinha de haver entre esse direito negado ao patronato e o direito dos trabalhadores à greve.
E mesmo o então deputado democrata cristão Basílio Horta reclamava essa assimetria em nome do CDS.
O PPD contra a "fúria" nacionalizadora, pelo socialismoEm 31 de Outubro de 1975, o PS propôs que a Constituição consagrasse a irreversibilidade das nacionalizações. Votaram a favor da proposta o próprio PS, o PCP, o MDP e a UDP. O PPD como tal não votou contra: absteve-se. Só o CDS votou contra.
Vários meses depois, em 10 de Fevereiro de 1976, com a “normalização” do 25 de Novembro já consumada, a ambiguidade da direita sobre as nacionalizações continuaria a reflectir-se no discurso de Emídio Guerreiro, um homem que chegou a ser presidente interino do PPD.
Nessa data, o popular-democrata Guerreiro, figura tutelar do actual partido de Passos Coelho, denunciava a "propaganda farisaica contra as conquistas da Revolução e, em especial, contra as nacionalizações e a reforma agrária”.
Mais típica do abstencionismo popular-democrata era talvez, em todo o caso, a atitude de Alfredo de Sousa, que no dia da Alfredo de Sousa (PPD)
"A instauração do socialismo não se faz com uma fúria de nacionalizações ditadas por um espírito sectário, como aqui já foi dito. Faz-se progressivamente, com ordem, com rigor e com realismo”.votação sobre a irreversibilidade das nacionalizações, 31 de Outubro, explicava as suas reservas sobre a proposta do PS.
E é significativo que Alfredo de Sousa explicasse essas reservas em nome de um “socialismo” que considerava mais bem entendido que o dos então defensores das nacionalizações.Revolução russa e Thermidor
Em 18 de Novembro, a uma semana do desenlace da revolução, a então deputada popular-democrata Helena Roseta criticava Helena Roseta (PPD)
“O povo português está vigilante. Não porque a revolução russa não tenha sido inicialmente um movimento libertador, que foi (...), mas porque conduziu o povo russo à ditadura, como todos sabem".Álvaro Cunhal por, alegadamente, pretender tomar o poder em Portugal, segundo o modelo que os bolcheviques tinham seguido na Rússia.
E, curiosamente, sentia-se na necessidade de prestar preito e homenagem a essa revolução russa que foi "inicialmente um movimento libertador".
Em breve, porém, iria verificar-se que estava iminente uma viragem à direita e não uma tentativa insurreccional liderada pelo PCP.
O 25 de Novembro restabeleceu a autoridade da hierarquia tradicional das Forças Armadas e iniciou um processo de alinhamento do discurso constituinte com o mainstream europeu.
Mas o alinhamento consumia o seu tempo e em 10 de Fevereiro seguinte o já citado popular-democrata Emídio Guerreiro ainda afirmava: "A alta burguesia portuguesa vê no 25 de Novembro o seu '9 Thermidor' e já pensa com frenesi no '18 brumaire'".
Ao contrário do que Rosa Luxemburg recomendara ao seu Partido Social-Democrata, não eram os deputados constituintes a "falar pela janela", para serem ouvidos na rua; era a rua a "falar pela janela" e a ser ouvida, e imitada, nas mais improváveis bancadas parlamentares.
Não faltam, por exemplo, citações de deputados do actual partido de Passos Coelho, então PPD, a darem ao PCP e à UDP lições sobre o que seria o leninismo bem entendido, com todos os seus méritos, de aparência - na altura - consensual.
Quando o PPD homenageava LenineAssim, em 7 de Agosto de 1975, empreendeu o deputado do PPD Gonçalves Sapinho invocar o bom exemplo de Lenine contra os Sapinho (PPD)
"Contrariando a filosofia de Lenine, o PCP, em vez de se ter preocupado em conquistar o povo para a revolução, lançou-se, feroz e sofregamente, na conquista do poder - puro estalinisimo".
comunistas portugueses. Estes, dizia, não tinham assimilado a herança do dirigente bolchevique, mas tão-somente a sua corruptela estalinista.
Especialmente irónica era a circunstância de Sapinho desenvolver estas considerações na sequência de azedas trocas de palavras que, nos dias anteriores, mantivera com a bancada comunista, depois de esta o ter acusado de participar activamente no assalto a um centro de trabalho do PCP.
Depois, em 16 de Outubro, o também popular-democrata Artur Cunha Leal invocava o exemplo bolchevique contra os comunistas portugueses: "Lenine tinha efectivamente razão, já que a conquista dos lugares está bem longe de significar a conquista das massas".
Cunha Leal (PPD)
Quando é que o sr. general Otelo Saraiva de Carvalho deixará de sonhar poder vir a ser o Fidel Castro da Europa (...) para o que aliás lhe faltará sempre grandeza de alma, compostura intelectual, coerência de comportamento, passado de luta em prol da democracia e da liberdade e temperamento de chefe"?
E era também o mesmo Cunha Leal que contrapunha à infantil megalomania de Otelo o exemplo de Fidel como digno de ser seguido.
Recorde-se que Otelo voltara de uma visita oficial a Cuba com um entusiasmo infrene, e que dera livre e público curso às fantasias do papel de "Fidel Castro da Europa", que alegadamente poderia ter sido o seu, se tivesse feito mais algumas leituras.
Se as originalidades de Otelo foram, em geral, criticadas pelos partidos da direita, o ângulo de crítica escolhido por Cunha Leal não deixa de revestir alguma representatitividade para o modo de se expressar de uma parte dessa direita.
Direita com os trabalhadores, contra os patrões
Em termos políticos mais imediatos, em 10 de Setembro, o deputado do PPD Furtado Fernandes ia buscar argumentos ao reportório marxista para combater a lei da unicidade sindical, propugnada pelo PCP.
Assim, Furtado Fernandes citava o constituinte comunista Vital Moreira, quando este afirmava numa obra de referência anteriormente publicada que “o monopólio da representação sindical é uma das características do corporativismo".
Mário Pinto (PPD)
“O lock out não podia de modo nenhum ser considerado uma arma lícita como resposta ou contra-resposta à arma da greve".
Basílio Horta (CDS)
"No programa do CDS, nas nossas declarações, sempre afirmámos que não reconhecemos o lock out como um direito que pudesse sequer ser comparável ao direito de greve”
No que diz respeito aos direitos à greve e ao lock out, respectivamente arma operária e patronal, todos os partidos, da esquerda à direita, diziam tomar partido pelos trabalhadores.
O deputado do PPD Mário Pinto manifestou, nomeadamente, a concordância do seu partido com a proibição do lock out, sublinhando a assimetria que tinha de haver entre esse direito negado ao patronato e o direito dos trabalhadores à greve.
E mesmo o então deputado democrata cristão Basílio Horta reclamava essa assimetria em nome do CDS.
O PPD contra a "fúria" nacionalizadora, pelo socialismoEm 31 de Outubro de 1975, o PS propôs que a Constituição consagrasse a irreversibilidade das nacionalizações. Votaram a favor da proposta o próprio PS, o PCP, o MDP e a UDP. O PPD como tal não votou contra: absteve-se. Só o CDS votou contra.
Vários meses depois, em 10 de Fevereiro de 1976, com a “normalização” do 25 de Novembro já consumada, a ambiguidade da direita sobre as nacionalizações continuaria a reflectir-se no discurso de Emídio Guerreiro, um homem que chegou a ser presidente interino do PPD.
Nessa data, o popular-democrata Guerreiro, figura tutelar do actual partido de Passos Coelho, denunciava a "propaganda farisaica contra as conquistas da Revolução e, em especial, contra as nacionalizações e a reforma agrária”.
Mais típica do abstencionismo popular-democrata era talvez, em todo o caso, a atitude de Alfredo de Sousa, que no dia da Alfredo de Sousa (PPD)
"A instauração do socialismo não se faz com uma fúria de nacionalizações ditadas por um espírito sectário, como aqui já foi dito. Faz-se progressivamente, com ordem, com rigor e com realismo”.votação sobre a irreversibilidade das nacionalizações, 31 de Outubro, explicava as suas reservas sobre a proposta do PS.
E é significativo que Alfredo de Sousa explicasse essas reservas em nome de um “socialismo” que considerava mais bem entendido que o dos então defensores das nacionalizações.Revolução russa e Thermidor
Em 18 de Novembro, a uma semana do desenlace da revolução, a então deputada popular-democrata Helena Roseta criticava Helena Roseta (PPD)
“O povo português está vigilante. Não porque a revolução russa não tenha sido inicialmente um movimento libertador, que foi (...), mas porque conduziu o povo russo à ditadura, como todos sabem".Álvaro Cunhal por, alegadamente, pretender tomar o poder em Portugal, segundo o modelo que os bolcheviques tinham seguido na Rússia.
E, curiosamente, sentia-se na necessidade de prestar preito e homenagem a essa revolução russa que foi "inicialmente um movimento libertador".
Em breve, porém, iria verificar-se que estava iminente uma viragem à direita e não uma tentativa insurreccional liderada pelo PCP.
O 25 de Novembro restabeleceu a autoridade da hierarquia tradicional das Forças Armadas e iniciou um processo de alinhamento do discurso constituinte com o mainstream europeu.
Mas o alinhamento consumia o seu tempo e em 10 de Fevereiro seguinte o já citado popular-democrata Emídio Guerreiro ainda afirmava: "A alta burguesia portuguesa vê no 25 de Novembro o seu '9 Thermidor' e já pensa com frenesi no '18 brumaire'".