Quanto vale combater a desinformação? Trump pediu e UE retirou patrocínio a conferência

Quanto vale combater a desinformação? Trump pediu e UE retirou patrocínio a conferência

A Administração Trump pediu e a União Europeia retirou o patrocínio que tinha dado a uma conferência sobre desinformação. A conferência #Disinfo2026 é o encontro anual da comunidade europeia que combate a desinformação.

Cristina Santos - RTP / Adicionar como fonte informativa
Foto: Arturo Esparza - Unsplash

O encontro, ainda a decorrer esta quinta-feira, reúne centenas de investigadores, jornalistas, especialistas em tecnologia e decisores políticos num hotel em Vilnius, na Lituânia.

De acordo com o jornal britânico The Guardian o Departamento de Estado dos EUA contactou vários governos sobre o apoio que davam à conferência. Três pessoas conhecedoras do assunto, incluindo autoridades europeias, confirmaram isso mesmo ao Guardian.

O mesmo confirmam os documentos internos do Departamento de Estado a que o jornal teve acesso. 

Nesses documentos alguns responsáveis norte-americanos agradecem especificamente à Lituânia por "levar a sério as preocupações dos EUA". Em causa estava um painel da conferência sobre o papel dos EUA na "manipulação e interferência de informação estrangeira" (FIMI - foreign information manipulation and interference). 
Foto: Elimende Inagella - Unsplash

Diversas fontes e o documento interno a que o Guardian teve acesso asseguram que o Departamento de Estado estava explicitamente focado neste painel, que contou com três oradores norte-americanos, incluindo um ex-agente da CIA.

O documento refere que Washington estava "grato" pelo facto de o governo de Vilnius considerar "repreensível e surpreendente" um painel que retratava os EUA como uma ameaça de informação estrangeira, e saudou a decisão do país limitar a participação na conferência.

Este painel, intitulado "EUA como ameaça FIMI: adaptar, reconhecer, contra-atacar", decorreu na quarta-feira. O debate explorou a forma como a comunidade europeia de combate à desinformação poderá reconstruir a sua resiliência sem Washington. Sendo esta a primeira vez que a conferência debateu a ideia de que os EUA podem ser agentes de desinformação na Europa. 
Foto: Jorge Franganillo - Unsplash

O Guardian também apurou que França foi outro país contactado pela administração Trump. 

Uma fonte diplomática do Ministério francês dos Negócios Estrangeiros afirma que "não há absolutamente nenhuma razão para alterarmos os nossos compromissos" no que diz respeito ao apoio à conferência. "Mantemos o nosso apoio à sociedade civil. Não se trata apenas de uma questão de princípios, mas de uma abordagem operacional", sublinhou esta fonte citada pelo jornal. 
Paris acrescenta que a conferência serviu como um "laboratório" que ajudou a Europa a desenvolver políticas fundamentais para o combate à desinformação.

Nina Jankowicz, ex-funcionária do Governo norte-americano (na administração Biden) e especialista em desinformação, citada pelo jornal, garante que Washington pressionou a Lituânia e o Canadá a retirarem-se da conferência. "O que isto significa, na prática, é que um alegado defensor da liberdade de expressão no Departamento de Estado está a usar o enorme poder do governo dos EUA para tentar impedir os americanos de criticar o seu próprio Governo", acusa Nina Jankowicz.
Foto: Insaanu Studio - Unsplash

Em três comunicados, a Lituânia, o Canadá e a UE justificam ter retirado o apoio à conferência porque o programa da mesma não estava alinhado com as posições oficiais sobre o papel dos EUA na desinformação. O programa da #Disinfo 2026 estava definido desde junho, mais de três meses antes de retirarem o apoio.
Um porta-voz da UE confirmou a decisão de retirar o apoio à conferência porque "os organizadores optaram por conduzir algumas das discussões de uma forma que não está alinhada com as posições oficiais da UE".

Ao que o Guardian apurou, as autoridades da UE discordam da forma como os EUA são caracterizados como um agente de desinformação.
Foto: Insaanu Studio - Unsplash

O evento é organizado pelo EU Disinfo Lab, uma organização independente sem fins lucrativos sediada em Bruxelas.

O jornal eletrónico conta que, no último ano, o Departamento de Estado dos EUA adotou uma postura cada vez mais interventiva em relação à liberdade de expressão e à sociedade civil na Europa. 

O Guardian já revelou que Washington está a atribuir milhões de dólares em subsídios a organizações de todo o continente europeu que apoiam a agenda de Trump.
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