Rangel critica medidas com "efeito chamada" de migrantes
O chefe da diplomacia portuguesa insistiu hoje no parlamento que a entrada de milhares de pessoas em Ceuta em julho não ameaçou o espaço Schengen, mas criticou medidas que possam ter "efeito chamada" de migrantes.
O ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, que falava durante uma audição parlamentar na comissão de Assuntos Europeus aludia à regularização extraordinária de centenas de milhares de imigrantes promovida pelo Governo espanhol.
"Logo no dia 31 de julho e no dia 01 de agosto, eu e primeiro-ministro dissemos claramente que não havia nenhuma ameaça a Schengen naquele momento, não quer dizer que mais tarde não houvesse", comentou.
Questionado por vários deputados sobre os acontecimentos na cidade autónoma espanhola de Ceuta, onde no final de julho entraram mais de 70 mil pessoas através da fronteira com Marrocos, Rangel disse ter recebido sempre "informação fiável e abundante" das autoridades espanholas, bem como ter estado em contacto frequente com Rabat.
O ministro salientou a "condenação [do Governo] de ações que têm o efeito chamada", comentando que "Portugal achou que não era prudente" a regularização extraordinária que as autoridades espanholas tinham feito, porque têm "um impacto enorme sobre os outros Estados-membros".
A questão da imigração motivou um debate mais aceso com o deputado socialista João Torres, que acusou o ministro da falta de humanismo, depois de Rangel ter destacado o impacto nos sistemas de saúde, educação e habitação da entrada de cerca de 800 mil imigrantes em Portugal entre 2021 e início de 2025, devido à chamada manifestação de interesse durante o Governo de António Costa.
"A nossa posição é diferente [da do Chega], mas também da do PS, que é tudo menos humanista", disse Rangel, acusando o antigo executivo socialista de "fazer entrar as pessoas sem pensar se há meios no sistema de educação, de saúde, se há condições de habitação", denunciando casos de "pessoas a viver em condições sub-humanas".
"Precisamos dessa mão-de-obra? Precisamos, mas queremos que as pessoas estejam em condições dignas", salientou.
Pelo Chega, Ricardo Reis agradeceu a Paulo Rangel por afirmar o que o seu partido diz "há anos e anos" e defendeu "na saúde, educação e habitação, a migração tem um peso muito grande".
O deputado questionou o governante se vai defender junto dos parceiros europeus "a remigração destas pessoas que pesam sistematicamente nos serviços".
Na resposta, Paulo Rangel sugeriu a Ricardo Reis que "faça o número para o `tik-tok` diário na rua e escusa de fazê-lo na comissão de Assuntos Europeus".
"Usando a minha experiência de professor, vou dizer-lhe uma coisa: declaração mais vazia que a sua ainda não tinha ouvido nenhuma aqui", comentou.