Sócrates acusa Cavaco de ter alimentado conspiração contra Governo socialista

Segundo o ex-primeiro-ministro socialista, na entrevista da noite de quarta-feira à RTP, foi na Casa Civil da Presidência da República que nasceu uma conspiração para derrubar o seu Governo. Às vozes que hoje acusam Cavaco Silva de “não fazer nada” para pôr cobro à política do Executivo PSD-CDS, José Sócrates deu uma explicação para o comportamento do Presidente: o de ser ele o “patrono” da presente solução governativa.

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Na entrevista à estação pública, José Sócrates considerou que o Presidente da República, Cavaco Silva, tem actuado com “dois pesos e duas medidas” Miguel A. Lopes, Lusa

Na entrevista, longa de hora e meia, aos jornalistas Vítor Gonçalves e Paulo Ferreira, José Sócrates começou por explicar o seu regresso pelo desejo de apresentar o seu ponto de vista sobre uma governação à qual, em sua opinião, se têm atribuído todas as responsabilidades, no que classificou como “uma narrativa sem contraditório”.
"Má notícia para essa gente": Sócrates de volta
A intenção deste regresso à ribalta não aponta, segundo o ex-primeiro-ministro, a um possível regresso à vida política. Sócrates insistiu no desejo de participar no debate e de introduzir diversidade numa imagem monocórdica que se tem imposto sobre o passado recente. Às perguntas concretas sobre ambições de candidatura presidencial, respondeu contudo com uma rotunda negativa, negando a existência de qualquer plano nesse sentido. Negou ter “algum desejo oculto, algum plano que não quer revelar”.

Sobre as manifestações e petições contra a participação nas emissões da RTP como comentador, Sócrates lembrou que os animadores dessa contestação se queixavam há uns anos da “asfixia democrática”, e agora se queixam de o ver a contraditar as “narrativas simples e primárias em que acham que me podem acusar de tudo”. Em tom de desafio, o ex-primeiro-ministro anunciou ter uma “má notícia para essa gente” – a de que vai intervir no debate político.

Sócrates referiu também que circula mesmo a versão de ter sido ele próprio a tomar a iniciativa de abordar a RTP para passar a fazer comentário político na estação pública - algo que desmentiu com veemência, sendo nesse ponto confirmado pelo jornalista e director de Informação, Paulo Ferreira. Sócrates esclareceu também que fez questão de que a sua colaboração se fizesse a título gratuito, por corresponder "não só a um direito, mas também a um dever".

O entrevistado também não poupou o outro comentador contratado em simultâneo, o ex-ministro Morais Sarmento, que recentemente o classificou como um político “sem medo e sem vergonha”. Sócrates considerou que se trata de mais uma ilustração da cultura de uma certa direita, que não esgrime argumentos, mas insultos e que parte do princípio de que “o espaço televisivo é para nós”.

Já em relação ao PS, que parecia visado nas frequentes referências a uma narrativa única, sem qualquer voz que se levantasse contra ela, Sócrates reagiu a uma pergunta de Vítor Gonçalves sublinhando que considera natural o PS ter o comportamento que tem, porque entrou num novo ciclo e elegeu um novo líder.
Quem teve a culpa do pedido de ajuda externa
Na discussão sobre o balanço da sua governação, contrariou a visão que colocava entre parêntesis o peso da crise internacional nas “dificuldades” do país e atribuía todas as responsabilidades à política do Executivo – algo que classificou como um “embuste”. Os partidos da actual maioria, que segundo Sócrates cometeram esse erro quando se encontravam na oposição, pagam agora o silêncio de então sobre a crise internacional, tendo “agora a maior dificuldade em explicar aos portugueses que grande parte das dificuldades resultam dessa crise”.

No que diz respeito ao impacto diferenciado que a crise internacional teve sobre os vários países europeus e à quota parte de responsabilidades do seu Governo na crise, Sócrates afirmou que a crise tinha de atingir com particular violência os países problemas estruturais especialmente acentuados e reivindicou o mérito de ter combatido três défices fundamentais: ao nível educativo, ao nível energético e ao nível do investimento privado. Segundo o ex-primeiro-ministro, “foram os mercados financeiros que com base na sua ganância provocaram o endividamento dos Estados” e tudo se deveu ao “comportamento desonesto e ganancioso dos mercados”.

À acusação corrente de que foi o seu Governo a tornar inevitável o pedido de ajuda externa, Sócrates respondeu que o verdadeiro motivo foi a crise política e a recusa do PEC IV. O antigo chefe do Governo negou que tivesse inviabilizado um envolvimento dos partidos da oposição na elaboração do PEC IV, embora tenha reconhecido que esse plano foi primeiro apresentado em Bruxelas. Tratava-se porém, segundo Sócrates, de uma apresentação que visava recolher o indispensável apoio do Banco Central Europeu e que não fechava o PEC IV a ulteriores alterações, que ao longo de duas semanas terão estado em debate como possibilidade concreta.

“Havia, segundo Sócrates, disponibilidade para alterações num diálogo interno em Portugal”, sendo que, afinal, “a minha solução foi aprovada em Bruxelas e foi chumbada aqui”. A ser aprovada também em Portugal, poderia ter conduzido, nesta visão, a um quadro semelhante ao que actualmente se vive em Espanha, país sujeito a diversos condicionamentos, mas que não se encontra propriamente intervencionado em nome de um resgate internacional.
Cavaco Silva, "patrono" de uma "conspiração"
Sobre a acusação de “falta de lealdade institucional”, lançada contra ele pelo presidente da República, Sócrates considerou ser um comportamento “extraordinário” de Cavaco, o de lhe dirigir um tal “ataque pessoal, escrito, um ano depois de eu ter saído”.

E acrescentou: “Não reconheço ao senhor Presidente da República nenhuma autoridade moral [para lançar essa acusação]". Isto porque, explicou, nasceu precisamente “na casa civil da Presidência da República uma conspiração” para derrubar o Governo de então. Essa conspiração surgiu com a “invenção” de que o Governo estaria a espiar a Presidência da República – acusação essa da qual Cavaco nunca se demarcou, e engendrada por um assessor (Fernando Lima) que também não foi nunca desautorizado pelo presidente.

Um outro episódio que Sócrates destacou na relação com Cavaco foi o discurso pronunciado por este por ocasião da sua tomada de posse, em que o Presidente reeleito falou das dificuldades do país omitindo inteiramente o contexto de crise internacional, dando assim o sinal aos partidos da oposição sobre a necessidade de mudar de Governo.

Segundo Sócrates, o Presidente falou então da importância de os jovens se manifestarem, vindo mais tarde a pagar o preço desse apelo, quando estudantes secundários lhe organizaram uma espera numa escola que ia visitar.
"Dois pesos e duas medidas"
Em todo o caso, o entrevistado considerou que o Presidente tem actuado com “dois pesos e duas medidas”, porque dizia, naquela altura em que, apesar de tudo, os subsídios sempre continuaram a ser pagos, que havia “um limite para os sacrifícios”.

Hoje, pelo contrário, Cavaco Silva não põe limites aos sacrifícios resultantes de uma política muito mais gravosa porque, segundo Sócrates, é ele o “patrono” desta solução política e pretende salvá-la a todo o custo. O discurso da tomada de posse foi, segundo Sócrates, o discurso de alguém que “queria uma crise política” e a sua atitude a seguir foi a de não fazer nada para evitar a queda do Governo.

O ex-primeiro-ministro criticou duramente a política de austeridade actual e a ânsia do Governo de "ir além da troika". À ideia de que os defeitos desta política pudessem estar já contidos no memorando de entendimento, contrapôs que nenhum governo passa dois anos a governar sobre um documento de base, para descobrir, só então, que "o memorando estava mal desenhado". E rematou que "o que o Governo fez nestes dois anos foi aplicar o dobro da austeridade que estava no memorando inicial. Este Governo fez já sete alterações ao memorando inicial".

Segundo Sócrates, "esta solução não resulta. Se continuarmos a cavar na mesma solução, não cumpriremos nem défice, nem dívida".

Sócrates discutiu ainda vários outros temas como o das PPP, negando a versão corrente sobre as mesmas, e deu explicações sobre os recursos pessoais com que organizou a sua actual estadia em França - com um crédito, afirmou.
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