Um confronto (in)esperado no Partido Socialista

Um confronto (in)esperado no Partido Socialista

Em dia de eleições primárias, um sufrágio inédito em Portugal, traçamos os perfis políticos e destacamos os momentos marcantes na carreira dos dois candidatos que há muito percorrem caminhos diferentes, mas próximos, no seio do partido. O embate decisivo acontece este domingo, mas a divisão e o afastamento político entre os dois socialistas é de há três décadas. E um partido fragmentado entre “costistas” e “seguristas” aquele que agora conhece um histórico processo eleitoral.

Andreia Martins, RTP /
António José Seguro apoiou António Costa na candidatura à Câmara de Lisboa, em Setembro de 2013. Pedro Nunes, Lusa

Quando, no passado dia 25 de maio, a vitória do Partido Socialista nas eleições europeias havia sido muito menos expressiva do que os números que se faziam prever pelas sondagens, António José Seguro carregava o tom do discurso com a celebração efusiva do resultado.

Mas a retórica da vitória não impressionou a nível interno e António Costa nem sequer a chegou a festejar. Mário Soares diria dois dias mais tarde, no Diário de Notícias, que aquela fora uma “vitória de Pirro” e que os festejos do secretário-geral eram desproporcionados face à realidade dos resultados.
Escrito nas estrelas
Poucas horas depois de o “histórico” socialista partilhar as suas preocupações quanto ao futuro do PS nas legislativas, António Costa tornava públicas as suas intenções e mostrava-se “disponível” para a liderança do partido.

Este confronto estava “escrito nas estrelas”, diziam então os críticos. A cisão entre os dois jovens políticos começou logo nos anos 80, mais precisamente quando José Polinário tomou conta da Juventude Socialista, entre 1984 e 1990.
A votação decorre entre as 9h00 e as 19h00 deste domingo. Haverá pelo menos uma mesa de voto por concelho. Ao todo, são cerca de 700: estão instaladas nas sedes partidárias e em edifícios públicos, mas também em centros comerciais ou quartéis de bombeiros.

Jorge Coelho, presidente da Comissão Eleitoral, destacou já o universo de votantes que o partido conseguiu formar - estão inscritas 243 mil pessoas.

Num período marcado por tensões entre a JS e o próprio Partido, Costa e Seguro integram a mesma direção da Juventude Socialista por um curto período de tempo. Apenas o atual secretário-geral se manteve ao lado de Polinário, até 1990, quando passa ele próprio a dirigir a Juventude Socialista. Depois de Seguro, a liderança do grupo seria alternada entre “costistas” e “seguristas”, por mais de uma década. O caso mais mediático opôs Jamila Madeira e Ana Catarina Mendes, em 2000.

O autarca e o atual líder do PS mantiveram, desde os tempos da Juventude Socialista, o silêncio público quanto ao trabalho desenvolvido pelo outro. Quando Seguro se apresenta como candidato à liderança do partido, em junho de 2011, Costa comenta com distância: “Não o conheço bem. Sei quem ele é, já nos cruzámos, mas não é uma pessoa com quem tenha convivido”.

As aparições conjuntas, em campanha, são mais frequentes nos últimos anos, como é o caso das últimas europeias, o sufrágio que acabou por desencadear o processo de eleição dos socialistas. Mas o silêncio deu lugar à escalada de insultos e acusações trocadas - na segunda pessoa do singular - principalmente no decorrer dos debates televisivos, em setembro.

Por várias vezes, os percursos de António Costa e António José Seguro se cruzaram ou aproximaram ao longo dos mais de 30 anos que ambos já dedicaram ao partido. Por várias vezes, apoiaram de forma puramente coincidente os mesmos candidatos, contudo com as suas idiossincrasias. As influências políticas e os cargos por que passaram denotam diferenças importantes entre os dois candidatos.
Dos Paços do Concelho, um país
Natural de Lisboa, cidade de onde é hoje autarca, António Costa nasceu em 1961 e cresceu no Bairro Alto. Filho de uma família liberal e cosmopolita, alistou-se na vida política ainda com 14 anos e nunca mais parou.

Licenciou-se em Direito pela Universidade de Lisboa e ainda exerceu a profissão durante alguns anos, mas foi à política que se decidiu dedicar. Participa na Assembleia Municipal de Lisboa durante quase toda a década de 80 e inícios da década seguinte.

A casa que se segue é a Assembleia da República, onde se senta pelo Partido Socialista, entre 1991 e 1995. Pelo meio, candidata-se à presidência da Câmara de Loures, em 1993, e perde as eleições para o PCP pela margem mínima. O primeiro cargo governativo acontece durante o primeiro mandato de António Guterres, enquanto ministro dos Assuntos Parlamentares, entre 1997 e 1999.

No mandato seguinte, que termina abruptamente com uma derrota significativa no PS nas eleições autárquicas, e com o partido mergulhado num “pântano político”, Costa assume as funções de ministro da Justiça. Em 1998, outro cargo de relevo: António Costa assume a responsabilidade pela Expo 98. Na viragem do século, o atual autarca de Lisboa foi eurodeputado em 2004 e 2005, tendo ainda ocupado o cargo de sétimo vice-presidente.

Quando volta de Bruxelas, José Sócrates chama-o para seu braço direito. Assume apenas por dois anos a pasta do Estado e da Administração Interna. Em 2007, Costa concorre e vence as autárquicas intercalares em Lisboa. Volta a vencer o município em 2009 e em setembro do ano passado, sempre com vitórias por maioria absoluta.


Foto: Estela Silva/Lusa

Por altura desta mesma candidatura, já se especulava, dentro e fora do partido, que o autarca tinha em vista outros voos, ao nomear Fernando Medina como vice-presidente, um candidato forte com a pasta das Finanças e que lhe pudesse dar garantias, caso fosse necessário fazer grandes ausências dos Paços do Concelho.

António Costa arrancou para esta longa campanha pela cúpula do PS com o objetivo declarado de proporcionar ao partido o melhor resultado possível nas próximas legislativas. É acusado pelo adversário de ter sido “traidor” e oportunista, na escolha do momento para o fazer. Não obstante, conta com o apoio incansável de fundadores e nomes de peso no Partido, como Mário Soares, Ferro Rodrigues e Manuel Alegre.Quase, quase primeiro-ministro
É de Penamacor, em Castelo Branco, onde nasceu e cresceu. Mais novo do que António Costa em oito meses, António José Seguro é o terceiro filho de um casal humilde. A família geria um café e depois uma papelaria, onde começa a ganhar o hábito de ler jornais e acompanhar a atualidade política.

Antes de partir para estudar em Lisboa, Seguro mostrou-se proativo no seu meio. Fundou um jornal e uma concelhia (a primeira) da Juventude Socialista na terra natal. Por lá viveu até aos 18 anos, altura em começa a estudar Gestão de Empresas, no ISCTE, curso que nunca chegou a terminar. Mais tarde, 20 anos depois, viria a licenciar-se em Relações Internacionais pela Universidade Autónoma de Lisboa. Frequentou recentemente um mestrado em Ciência Política.

Tal como Costa, também Seguro foi discípulo de António Guterres durante o arranque da vida política. E também ele se estreou em funções quando José Polinário o chama para integrar a direção da Juventude Socialista, há 30 anos. António José Seguro opta por ficar e esperar pela sua oportunidade de dirigir o JS. Escolhe o caminho mais correto e menos arriscado de quem quer chegar longe no partido.

 
Foto: Miguel A. Lopes/Lusa

Dirige a Juventude Socialista entre 1990 e 1994, onde lhe são reconhecidas algumas campanhas e intervenções mais radicais. Fica, em verdade, tão conhecido por esta função que nunca se conseguiu descolar da alcunha de “jovem velho” que ainda hoje lhe é atribuída pelos críticos.

Entra pela primeira vez na Assembleia da República como deputado enquanto dirigente da JS, onde integra a bancada socialista até 1995. O jovem Seguro pegava novamente numapasta que o associava à juventude: foi secretário de Estado da Juventude de Guterres na XIII Legislatura e chegou mesmo a ser o braço direito do primeiro-ministro, enquanto ministro adjunto, entre 2001 e 2002, antes do desaire no partido e da saída do atual Alto Comissário da ONU.

É esta a sua única função num ministério, que interrompe os dois anos que o eurodeputado passa em Bruxelas, entre 1999 e 2001. Tal como António Costa, foi também vice-presidente do grupo do Partido Socialista Europeu.

Volta a entrar como deputado pelas portas da AR quando José Sócrates inicia o seu primeiro mandato. Crítico relativamente ao então primeiro-ministro, Seguro mantém-se no Parlamento durante seis anos e vê Sócrates no lugar para onde queria ter avançado logo em 2005, não fosse o conselho de Jorge Coelho.

Com o fim desastroso do segundo mandato de José Sócrates, que acaba em pedido de resgate, é António José Seguro que se chega à frente para a liderança do principal partido da oposição, depois de desafiado por Francisco Assis (hoje apoiante de Seguro). António José Seguro é eleito com mais de 65 por cento dos votos dos militantes e chega finalmente a São Bento.

É desde 2011 um dos principais rostos da oposição à maioria PSD/CDS e às políticas de austeridade. Mas no PS há quem peça desde logo a intervenção de António Costa. Seguro vence por margem reduzida tanto as eleições autárquicas, em setembro de 2013 (36 por cento) como as europeias (34 por cento), duas vitórias que o líder socialista reclama mas que Costa vê como prova da falta de “afirmação” do partido.
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