Política
Presidenciais 2026
Uma volta a Portugal em bicicleta e um cartaz que alterou a História. O que muda numa segunda volta?
Até este domingo, só por uma vez Portugal tinha vivido uma segunda volta eleitoral. Em 1986, Mário Soares enfrentava Diogo Freitas do Amaral numas Presidenciais que ficaram para a História. Ouvimos as memórias de quem fez as campanhas na altura, com pistas para quem vai a jogo dentro de três semanas.
Uma segunda volta é também uma segunda campanha, mas a verdade é que nem a comitiva de Freitas do Amaral nem a de Soares esmoreceram – muito pelo contrário. José Ribeiro e Castro, diretor executivo da campanha de Freitas, lembra a grande mobilização. “Em Lisboa foi uma coisa absolutamente extraordinária; uma manifestação, uma espécie de desfile-comício na Avenida da Liberdade e Restauradores. Quando começou o comício, estava completamente cheio desde os Restauradores até ao Marquês de Pombal”, recorda, “mas por todo o lado, em todo o país, esse clima de crescendo conseguiu repetir-se".
Também Alfredo Barroso, chefe de gabinete da candidatura de Mário Soares em 1986, salienta o entusiasmo no arranque da campanha da segunda volta. “O nosso estado de espírito era o maior possível porque tínhamos começado com uma expectativa dada pelas sondagens da ordem dos 6 a 8%. Portanto, foi com enorme espírito de vitória que nós nos entregámos à preparação da segunda volta”.
De um lado e do outro, as memórias são de uma campanha intensa, vivida sem que se percebesse o desfecho final. No terreno, da primeira para a segunda volta os percursos não mudaram muito. Diogo Freitas do Amaral fez praticamente o mesmo percurso e a campanha fez pequenos ajustes. José Ribeiro e Castro lembra que havia um grupo de jovens que acompanhava o candidato. “Tinham dado uma volta a Portugal a pé na primeira volta e, portanto, fizeram [na segunda volta] a mesma coisa, mas em bicicleta. O modelo foi bastante reproduzir o figurino da primeira, mas em dose mais concentrada”.
Também Mário Soares repetiu a volta do líder, mas teve um apoio de peso -- a mulher, Maria Barroso, liderou uma campanha paralela, principalmente no Alentejo e no Algarve. “Uma mulher corajosa”, recorda Alfredo Barroso, “que ainda por cima na memória de muitos populares era a declamadora que dizia a poesia revolucionária que acompanhava o espetáculo do coro de Fernando Lopes-Graça pelo país; sobretudo a sul do país, onde se concentrava mais o eleitorado do Partido Comunista”.
E na segunda volta Mário Soares teve mesmo de adequar o discurso – tinha de captar todo o eleitorado de esquerda. O então chefe de gabinete lembra que para essa segunda volta a campanha fez apenas um cartaz: “era uma fotografia dele com uma simples frase - 'o voto do povo'. Era evidentemente uma escolha que tinha a ver com o voto de esquerda, que em princípio é um voto popular”.
Já para Freitas do Amaral, não foi preciso mudar nada. “Ele pôde repetir um discurso que era muito para o centro e acentuá-lo", conta José Ribeiro e Castro. “Ele tinha uma frase que repetia e repetia. Dizia: ‘e, portanto, meus caros amigos, nós temos que seguir não é para a direita, não é para a esquerda, mas é para a frente de Portugal”. Um slogan que ficaria na História. O diretor de campanha, Ribeiro e Castro, lembra que foram dias intensos, em que sentiram o apoio nas ruas. Quanto a erros, recorda um dos momentos determinantes: o frente-a-frente Soares e Freitas do Amaral.
“O que se passou dentro do frente-a-frente não teve grande efeito. O que teve efeito foi esse frente-a-frente ter-se realizado; o nosso erro foi aceitar que ele se realizasse" É que Freitas do Amaral, que tinha uma vantagem de 25 pontos relativamente a Mário Soares da primeira volta, entregou essa vantagem no momento em que se sentou com Soares como igual no início da segunda volta. Empatou o jogo; e o facto de ter empatado o jogo, prejudicou”.
A 16 de fevereiro de 1986 os portugueses votavam pela primeira vez numa segunda volta. O impasse manteve-se até à noite eleitoral, quando começaram a chegar os primeiros dados. “Com os primeiros números da abstenção era claro que nós não conseguiríamos ganhar", conta Ribeiro e Castro, “nós tínhamos calculado que se a abstenção baixasse, nós teríamos mais dificuldade, porque significava que se tinha agudizado a bipolarização na segunda volta e essa bipolarização tendencialmente era mais a favor de Mário Soares do que nós próprios".
Na campanha de Soares, os primeiros números fizeram esperar o pior. “Os primeiros resultados que vão saindo são o das terras mais pequenas, onde a contagem de votos é mais rápida e cujo resultado se sabe mais depressa”, recorda Alfredo Barroso, “durante, digamos, 1 hora, parecia que tudo se conjugava para Freitas do Amaral largar a sua maioria, mas a verdade é que essas terras do Norte eram as mais conservadoras e faltava chegar às cidades e ao sul do país. Aí não há dúvida que Mário Soares tinha a maioria”. Soares acabou por vencer com 51% dos votos contra os 48% de Freitas do Amaral.
Ouça a conversa com José Ribeiro e Castro, diretor executivo de campanha de Freitas do Amaral em 1986
Ouça a entrevista a Alfredo Barroso, chefe de gabinete da candidatura de Mário Soares em 1986
Também Alfredo Barroso, chefe de gabinete da candidatura de Mário Soares em 1986, salienta o entusiasmo no arranque da campanha da segunda volta. “O nosso estado de espírito era o maior possível porque tínhamos começado com uma expectativa dada pelas sondagens da ordem dos 6 a 8%. Portanto, foi com enorme espírito de vitória que nós nos entregámos à preparação da segunda volta”.
De um lado e do outro, as memórias são de uma campanha intensa, vivida sem que se percebesse o desfecho final. No terreno, da primeira para a segunda volta os percursos não mudaram muito. Diogo Freitas do Amaral fez praticamente o mesmo percurso e a campanha fez pequenos ajustes. José Ribeiro e Castro lembra que havia um grupo de jovens que acompanhava o candidato. “Tinham dado uma volta a Portugal a pé na primeira volta e, portanto, fizeram [na segunda volta] a mesma coisa, mas em bicicleta. O modelo foi bastante reproduzir o figurino da primeira, mas em dose mais concentrada”.
Também Mário Soares repetiu a volta do líder, mas teve um apoio de peso -- a mulher, Maria Barroso, liderou uma campanha paralela, principalmente no Alentejo e no Algarve. “Uma mulher corajosa”, recorda Alfredo Barroso, “que ainda por cima na memória de muitos populares era a declamadora que dizia a poesia revolucionária que acompanhava o espetáculo do coro de Fernando Lopes-Graça pelo país; sobretudo a sul do país, onde se concentrava mais o eleitorado do Partido Comunista”.
E na segunda volta Mário Soares teve mesmo de adequar o discurso – tinha de captar todo o eleitorado de esquerda. O então chefe de gabinete lembra que para essa segunda volta a campanha fez apenas um cartaz: “era uma fotografia dele com uma simples frase - 'o voto do povo'. Era evidentemente uma escolha que tinha a ver com o voto de esquerda, que em princípio é um voto popular”.
Já para Freitas do Amaral, não foi preciso mudar nada. “Ele pôde repetir um discurso que era muito para o centro e acentuá-lo", conta José Ribeiro e Castro. “Ele tinha uma frase que repetia e repetia. Dizia: ‘e, portanto, meus caros amigos, nós temos que seguir não é para a direita, não é para a esquerda, mas é para a frente de Portugal”. Um slogan que ficaria na História. O diretor de campanha, Ribeiro e Castro, lembra que foram dias intensos, em que sentiram o apoio nas ruas. Quanto a erros, recorda um dos momentos determinantes: o frente-a-frente Soares e Freitas do Amaral.
“O que se passou dentro do frente-a-frente não teve grande efeito. O que teve efeito foi esse frente-a-frente ter-se realizado; o nosso erro foi aceitar que ele se realizasse" É que Freitas do Amaral, que tinha uma vantagem de 25 pontos relativamente a Mário Soares da primeira volta, entregou essa vantagem no momento em que se sentou com Soares como igual no início da segunda volta. Empatou o jogo; e o facto de ter empatado o jogo, prejudicou”.
A 16 de fevereiro de 1986 os portugueses votavam pela primeira vez numa segunda volta. O impasse manteve-se até à noite eleitoral, quando começaram a chegar os primeiros dados. “Com os primeiros números da abstenção era claro que nós não conseguiríamos ganhar", conta Ribeiro e Castro, “nós tínhamos calculado que se a abstenção baixasse, nós teríamos mais dificuldade, porque significava que se tinha agudizado a bipolarização na segunda volta e essa bipolarização tendencialmente era mais a favor de Mário Soares do que nós próprios".
Na campanha de Soares, os primeiros números fizeram esperar o pior. “Os primeiros resultados que vão saindo são o das terras mais pequenas, onde a contagem de votos é mais rápida e cujo resultado se sabe mais depressa”, recorda Alfredo Barroso, “durante, digamos, 1 hora, parecia que tudo se conjugava para Freitas do Amaral largar a sua maioria, mas a verdade é que essas terras do Norte eram as mais conservadoras e faltava chegar às cidades e ao sul do país. Aí não há dúvida que Mário Soares tinha a maioria”. Soares acabou por vencer com 51% dos votos contra os 48% de Freitas do Amaral.
Ouça a conversa com José Ribeiro e Castro, diretor executivo de campanha de Freitas do Amaral em 1986
Ouça a entrevista a Alfredo Barroso, chefe de gabinete da candidatura de Mário Soares em 1986