Política
Zeinal Bava leva queda da PT à Comissão de Inquérito sobre o BES
A variável PT entra esta tarde nas contas da falência do maior banco privado português. No Parlamento, Zeinal Bava vai responder às perguntas dos deputados, especialmente interessados em decifrar o investimento da operadora em dívida do Grupo Espírito Santo. O investimento que levou à renegociação dos termos da fusão entre a Oi e a PT e que acabou por conduzir à venda da operadora nacional aos franceses da Altice.
O caso PT encaixa esta quinta-feira no enredo da falência do Banco Espírito Santo. O antigo presidente executivo da operadora nacional vai a São Bento para ajudar a descodificar as teias que ligaram a PT e o BES e o declínio de ambas as empresas. A audição de Zeinal Bava marca um novo capítulo nas audições da Comissão Parlamentar de Inquérito ao caso BES.
Na primeira aparição pública de Zeinal Bava depois de abandonar a presidência da Oi, os parlamentares deverão insistir no apuramento da responsabilidade na decisão de investir em papel comercial do Grupo Espírito Santo. Depois de Zeinal Bava, Henrique Granadeiro será ouvido a 4 de março. Também Luís Pacheco de Melo, administrador financeiro da PT SGPS, foi chamado à Assembleia da República, numa audição prevista para o dia 5 de março.
Os deputados vão querer perceber se Zeinal Bava sabia deste investimento. A partir daqui, novas interrogações continuarão. Não será fácil Zeinal conseguir convencer os deputados de que não tinha acesso a essa informação.
Mas se sabia deste investimento será díficil explicar que a Oi não tinha conhecimento, uma vez que Zeinal Bava assumia funções executivas na empresa brasileira.
Investimento na RioForte
É neste ponto que os mistérios do BES se juntam aos da PT. E, nesse domínio, é bem provável que o foco dos deputados se dirija mais para a operadora nacional do que para o próprio banco. A comissão é de inquérito ao BES mas é assumido que a falência do banco outrora controlado pelo clã Espírito Santo arrastou a PT.
A revelação do investimento de quase 900 milhões de euros em papel comercial da RioForte levou à renegociação dos termos da fusão com a Oi. O operador lusófono com que Bava sonhava deixaria de existir. Em apenas 12 meses, as ações da Portugal Telecom desvalorizaram de forma considerável. Negociavam acima dos três euros em março de 2013 para valer atualmente cerca de 70 cêntimos. Em 2004, cada ação da PT valia mais de dez euros.
Começava a desfalecer a CorpCo, empresa que resultaria da fusão da PT com a Oi. A PT passava a ser apenas uma parte da operadora brasileira. A fusão dava lugar à “combinação de negócios”, com a Portugal Telecom a ficar com 25,6 por cento da futura empresa.
Nem isso se verificou. A PT Portugal prepara-se agora para deixar o universo da operadora brasileira e será adquirida pelo grupo francês Altice, decisão já aprovada quer pela Oi como pela PT SGPS.
Sabe ou não sabe?
Na auditoria realizada pela PricewaterhouseCoopers, o presidente da PT revelou ter tido conhecimento do investimento, mas garantiu que não se conseguia lembrar do montante que tinha sido aplicado. “É difícil compreender que uma pessoa como o Zeinal Bava, tão envolvido que estava na gestão quer da Oi como da PT, não soubesse o que estava a acontecer em termos de exposição da PT ao grupo BES”, afirmou Murteira Nabo em outubro, numa entrevista à Antena 1.
A auditoria da Portugal Telecom divulgada em outubro já tinha criticado a ação de Bava e Granadeiro e classificado a estratégia financeira como “imprudente”. Acusava ainda os gestores de terem sido capturados ao longo do tempo pelos interesses do banco.
“Não acredito que pessoas como o Zeinal Bava e o Henrique Granadeiro fossem tão ingénuas que se deixassem conduzir para fazer um ato tão mau, tão irresponsável e uma exposição tão grande a outra empresa”, defendeu Murteira Nabo, um dos responsáveis pela integração de Bava na empresa.
Esta tarde mede-se a influência do banco na própria operadora. Ao jornal i, uma fonte próxima revela que “não se tomavam decisões em Picoas antes de se passar na Avenida da Liberdade”, sede do BES. O banco era o maior acionista da operadora e a proximidade do gestor com Ricardo Salgado foi fundamental para o seu crescimento na PT.Arrastado pela RioForte
Bava foi visto durante anos como um verdadeiro exemplo à frente da operadora. Foi elogiado e inclusivamente premiado como melhor presidente executivo da Europa. A Universidade da Beira Interior concedeu-lhe mesmo o grau de doutor honoris causa, tornando-o a mais jovem personalidade a receber o título por aquela instituição.
Ao sucesso e respeito pelos seus congéneres, seguiam-se as boas relações com o poder político e com os acionistas, para o qual também terá contribuído uma generosa política de distribuição de dividendos. Os últimos meses abalaram todas estas dimensões.
“A gestão da PT é um caso de más práticas", defendia o ministro da Economia em declarações ao Expresso no passado mês de outubro. Pires de Lima classificou o investimento em dívida da RioForte como “um exemplo de destruição de valor” e teceu duras críticas à equipa gestora.
Uma gestão “capturada por interesses próprios e por interesses de um acionista” e “submissa a interferências políticas”, qualificou Pires de Lima.
A crítica também veio de Belém. Foram necessárias menos palavras mas a interrogação deixada por Cavaco Silva não deixava margens para dúvidas Reportagem de Ana Cardoso Fonseca, Manuel Oliveira e José Carrilho, novembro de 2014
“O que é que andaram a fazer os acionistas e os gestores dessa empresa?”, perguntou o Presidente da República em novembro.
Uma crítica precisamente ao que Cavaco tinha condecorado cinco meses antes. No 10 de Junho de 2014, o Presidente da República agraciava Bava com a ordem do mérito comercial, uma condecoração que distingue o trabalho de empresários por serviços revelantes na valorização do comércio, turismo ou serviços.
A questão que Cavaco Silva deixou no ar em novembro poderá ser repescada esta tarde pelos deputados da Comissão de Inquérito, naquela que será a primeira comunicação pública de Zeinal Bava desde saiu da Oi.
“Contem comigo na torcida!”, dirigiu Zeinal aos trabalhadores do grupo na carta de despedida.
Regressa esta tarde, momento em que os deputados vão perceber se também contam com ele para decifrar o imbróglio em que todo este caso se transformou.
Na primeira aparição pública de Zeinal Bava depois de abandonar a presidência da Oi, os parlamentares deverão insistir no apuramento da responsabilidade na decisão de investir em papel comercial do Grupo Espírito Santo. Depois de Zeinal Bava, Henrique Granadeiro será ouvido a 4 de março. Também Luís Pacheco de Melo, administrador financeiro da PT SGPS, foi chamado à Assembleia da República, numa audição prevista para o dia 5 de março.
Os deputados vão querer perceber se Zeinal Bava sabia deste investimento. A partir daqui, novas interrogações continuarão. Não será fácil Zeinal conseguir convencer os deputados de que não tinha acesso a essa informação.
Mas se sabia deste investimento será díficil explicar que a Oi não tinha conhecimento, uma vez que Zeinal Bava assumia funções executivas na empresa brasileira.
Investimento na RioForte
É neste ponto que os mistérios do BES se juntam aos da PT. E, nesse domínio, é bem provável que o foco dos deputados se dirija mais para a operadora nacional do que para o próprio banco. A comissão é de inquérito ao BES mas é assumido que a falência do banco outrora controlado pelo clã Espírito Santo arrastou a PT.
A revelação do investimento de quase 900 milhões de euros em papel comercial da RioForte levou à renegociação dos termos da fusão com a Oi. O operador lusófono com que Bava sonhava deixaria de existir. Em apenas 12 meses, as ações da Portugal Telecom desvalorizaram de forma considerável. Negociavam acima dos três euros em março de 2013 para valer atualmente cerca de 70 cêntimos. Em 2004, cada ação da PT valia mais de dez euros.
Começava a desfalecer a CorpCo, empresa que resultaria da fusão da PT com a Oi. A PT passava a ser apenas uma parte da operadora brasileira. A fusão dava lugar à “combinação de negócios”, com a Portugal Telecom a ficar com 25,6 por cento da futura empresa.
Nem isso se verificou. A PT Portugal prepara-se agora para deixar o universo da operadora brasileira e será adquirida pelo grupo francês Altice, decisão já aprovada quer pela Oi como pela PT SGPS.
Sabe ou não sabe?
Na auditoria realizada pela PricewaterhouseCoopers, o presidente da PT revelou ter tido conhecimento do investimento, mas garantiu que não se conseguia lembrar do montante que tinha sido aplicado. “É difícil compreender que uma pessoa como o Zeinal Bava, tão envolvido que estava na gestão quer da Oi como da PT, não soubesse o que estava a acontecer em termos de exposição da PT ao grupo BES”, afirmou Murteira Nabo em outubro, numa entrevista à Antena 1.
A auditoria da Portugal Telecom divulgada em outubro já tinha criticado a ação de Bava e Granadeiro e classificado a estratégia financeira como “imprudente”. Acusava ainda os gestores de terem sido capturados ao longo do tempo pelos interesses do banco.
“Não acredito que pessoas como o Zeinal Bava e o Henrique Granadeiro fossem tão ingénuas que se deixassem conduzir para fazer um ato tão mau, tão irresponsável e uma exposição tão grande a outra empresa”, defendeu Murteira Nabo, um dos responsáveis pela integração de Bava na empresa.
Esta tarde mede-se a influência do banco na própria operadora. Ao jornal i, uma fonte próxima revela que “não se tomavam decisões em Picoas antes de se passar na Avenida da Liberdade”, sede do BES. O banco era o maior acionista da operadora e a proximidade do gestor com Ricardo Salgado foi fundamental para o seu crescimento na PT.Arrastado pela RioForte
Bava foi visto durante anos como um verdadeiro exemplo à frente da operadora. Foi elogiado e inclusivamente premiado como melhor presidente executivo da Europa. A Universidade da Beira Interior concedeu-lhe mesmo o grau de doutor honoris causa, tornando-o a mais jovem personalidade a receber o título por aquela instituição.
Ao sucesso e respeito pelos seus congéneres, seguiam-se as boas relações com o poder político e com os acionistas, para o qual também terá contribuído uma generosa política de distribuição de dividendos. Os últimos meses abalaram todas estas dimensões.
“A gestão da PT é um caso de más práticas", defendia o ministro da Economia em declarações ao Expresso no passado mês de outubro. Pires de Lima classificou o investimento em dívida da RioForte como “um exemplo de destruição de valor” e teceu duras críticas à equipa gestora.
Uma gestão “capturada por interesses próprios e por interesses de um acionista” e “submissa a interferências políticas”, qualificou Pires de Lima.
A crítica também veio de Belém. Foram necessárias menos palavras mas a interrogação deixada por Cavaco Silva não deixava margens para dúvidas Reportagem de Ana Cardoso Fonseca, Manuel Oliveira e José Carrilho, novembro de 2014
“O que é que andaram a fazer os acionistas e os gestores dessa empresa?”, perguntou o Presidente da República em novembro.
Uma crítica precisamente ao que Cavaco tinha condecorado cinco meses antes. No 10 de Junho de 2014, o Presidente da República agraciava Bava com a ordem do mérito comercial, uma condecoração que distingue o trabalho de empresários por serviços revelantes na valorização do comércio, turismo ou serviços.
A questão que Cavaco Silva deixou no ar em novembro poderá ser repescada esta tarde pelos deputados da Comissão de Inquérito, naquela que será a primeira comunicação pública de Zeinal Bava desde saiu da Oi.
“Contem comigo na torcida!”, dirigiu Zeinal aos trabalhadores do grupo na carta de despedida.
Regressa esta tarde, momento em que os deputados vão perceber se também contam com ele para decifrar o imbróglio em que todo este caso se transformou.