O dia a dia das trincheiras portugueses

por RTP

Mais do que o combate, o que marca a vida nas trincheiras são a espera, o ócio, o tédio, a fome, o frio, os parasitas. Diários e correspondência de antigos combatentes, bem como relatos orais transmitidos de geração em geração, permitem-nos fazer uma ideia da rotina que precedeu o 9 de abril de 1918.

Ao chegar pela primeiro vez à sua trincheira, em novembro de 1917, António Santos teve o choque de ver o terreno escavacado por granadas e morteiros, como relata (em verso) no seu diário. Entendia, subitamente, que tinha chegado a um lugar de morte.

Os inimigos invisíveis
O que mais fazia sofrer os combatentes do CEP na Flandres era a fome e o frio.

Mas, no dia a dia da trincheira, um inimigo mais temível que os militares alemães atormenta os expedicionários portugueses: os piolhos. E há no diário de António Santos toda uma tipologia dos piolhos, uma distinção meticulosa entre os negros e os brancos, entre o habitat piloso que preferem uns e a pele lisa que preferem outros.


Rosa Leitão recorda as evocações do avô, João Augusto Calapez, sobre a vida nas trincheiras: o frio, a fome, as doenças, os piolhos. Calapez recordava o tifo, a cólera e a pneumonia. E recordava também como os soldados aproveitavam cascas de batata e de fruta, limpando-as ao uniforme, para depois as comerem.

Marcília Ernesto recorda igualmente relatos de seu avô, o antigo combatente Teodorico Soares, sobre a vida nas trincheiras: muita chuva, frio e lama, e uma dieta ao arrepio de todos os seus hábitos alimentares.


A neta do combatente recorda a propósito a história que o avô lhe relatou sobre o capacete de um soldado alemão que, a ele e aos companheiros, lhes serviu para cozer batatas. Ao alemão, explicava, já não lhe valia de nada; para os soldados portugueses, ainda tinha utilidade.

Humberto Almeida foi alferes do CEP e escreveu um livro de memórias sobre a sua experiência na frente. Maria de Lourdes Cunha, sua neta, ouviu dele várias histórias que vão além do registo escrito e publicado, em que avultam as experiências com o frio e a neve.

Nas cartas para a família, Humberto Almeida queixava-se do frio e da neve, e também de não lhe chegarem os petiscos enviados de casa: alheiras e mesmo trutas, que se perdiam pelo caminho.

Pedia sempre aos pais que lhe enviassem o Primeiro de Janeiro. O jornal demorava um mês a chegar, mas era sempre recebido com satisfação.



As misérias de uma logística pensada em laboratório
Rosa Leitão conta ainda que uma das experiências mais traumáticas do avô foi com os ataques de gás, que o obrigavam a envergar a máscara, e que mesmo assim lhe deixaram sequelas para o resto da vida - uma doença pulmonar para a qual o médico o mandava fumar.

Alexandre Leandro observa que as máscaras de gás usadas pelo avô e pelos seus companheiros não eram as mais adaptadas àquela guerra, porque apenas defendiam o sistema respiratório, quando também a pele era exposta às substâncias tóxicas lançadas pelo inimigo.

Manuel Leandro Revez voltou a Portugal, dado como incapaz devido a perdas de audição e de visão originadas na inalação de gazes tóxicos. A surdez havia de acompanhá-lo até ao fim da vida.


O fardamento encharcava-se com facilidade, havia muitas pulgas, piolhos e ratazanas. Havia uma mistura de lama, com cadáveres ou pedaços de cadáveres, e com estilhaços. Passava-se fome, mesmo para quem viesse do Alentejo habituado a ela.

Os uniformes eram feitos à medida da estatura habitual dos soldados ingleses, e a alimentação era em larga medida baseada no também britânico corned beef, a que os soldados portugueses não estavam habituados.

Também a falta de higiene nas trincheiras, a lama, as pulgas, os piolhos e os ratos, contribuíam para desgastar o moral dos soldados.


O terreno era lamacento, obrigava os soldados a andarem constantemente com as botas dentro de água, e a colocarem estrados de madeira sobre o solo para poderem deslocar-se.

As longas permanências na frente
Os militares portugueses tinham mais tempo de permanência na linha da frente do que era comum entre as tropas aliadas. Em contrapartida, o sector da frente destinado aos portugeses era relativamente tranquilo.

O maior desgaste das tropas portuguesas explica-se também pelos tempos mais longos de permanência na linha da frente: ao passo que as tropas do CEP em grande parte permaneceram 9 a 11 meses nessa linha, as tropas inglesas eram substituídas de três em três meses.

Teodorico Soares queixava-se também dos longos tempos de permanência nas primeiras linhas, nomeadamente em comparação com os tempos de permanência que eram habituais para as tropas de outras potências aliadas.

Um problema decisivo para minar o moral das tropas, estreitamente ligado ao da permanência na frente, foi o das licenças em Portugal. A partir de setembro de 1917, a Grã-Bretanha açambarca inteiramente a tonelagem disponível para o transporte marítimo. Dessa data em diante, só mais quatro viagens irão realizar-se.

Por terra, só os oficiais são autorizados a vir de licença a Portugal, o que equivale a excluir os soldados das licenças. Por outro lado, a falta de navios também significa que as tropas não podem ser rendidas.


Contudo, o problema dos transportes de tropas para a Flandres é anterior ao golpe de Estado de Sidónio Pais. A decisão política protelando os transportes, e portanto a substituição das tropas, é tomada ainda no verão de 1917, pelo Governo republicano que dá prioridade à obtenção de créditos britânicos, para tentar manter-se no poder.

Mas as tropas que se encontram na linha de trincheiras ficam sujeitas a um desgaste acrescido.

Mesmo as unidades que tinham chegado mais tarde já tinham demasiado tempo na frente, encontravam-se cansadas e reduzidas no seu efectivo. Um batalhão - com um efectivo de 1080 homens, em teoria - estava geralmente reduzido a uns 600. Uma companhia de infantaria, normalmente com três secções de metralhadora ligeira, estava reduzida a uma ou duas.



Licenças na retaguarda e punições na frente
Entre os soldados que estão na frente, há um sentimento de grande distância em relação aos oficiais que foram para a retaguarda.

Nas muitas horas mortas das trincheiras, Teodorico Soares e os seus companheiros jogavam à "batota" - apesar da proibição expressa de jogos a dinheiro. Enquanto uns jogavam, outros estavam de atalaia, para detectar a aproximação de algum oficial ao local da prática proibida.


Do registo biográfico de Teodorico, consta uma punição, por ter deixado, durante um ataque alemão, o local onde estava com outros a guarnecer uma metralhadora.

Manuel Leandro Revez reclama a certa altura que o rancho não chegou, tem um desaguisado com um alferes miliciano, teima que ainda não comeu, e acaba por ser punido com doze dias de detenção.

No corpo de oficiais nota-se o crescimento de um forte sentimento anti-guerrista, especialmente focado na participação em operações no teatro de guerra europeu.

A fractura que divide o corpo de oficiais a respeito da participação portuguesa na guerra torna-se um factor de divisão entre os próprios soldados.


Um dos problemas sentidos no CEP será a amiudada utilização de expedientes por numerosos oficiais para serem afastados da frente, muitas vezes no decurso das licenças gozadas em Portugal, que podiam ser pretexto para não se regressar às trincheiras.

Com a assunção do poder por Sidónio Pais, este problema agudiza-se ainda, em parte devido à escassez de quadros políticos do novo Governo, que procurava supri-la rodeando-se daqueles militares que lhe eram mais próximos ou que considerava mais confiáveis.

O próprio Governo passa a recrutar entre oficiais vindos a Portugal alguns dos quadros que lhe faziam falta para substituir a velha elite afecta a Afonso Costa.

O abandono dos soldados pelas autoridades militares e políticas prolongar-se-á no pós-guerra. Teodorico hesitou ainda, após o Armistício, em voltar para Portugal. Em França tinha uma namorada e áa tentação chegou a ser forte. Mas depois acabou por decidir-se pelo regresso.

José Silva foi guarda do cemitério de combatentes portugueses em Richebourg, França. Aí contactou com os familiares de numerosos combatentes e teve conhecimento das respectivas histórias - em grande parte histórias de abandono por parte do Estado, que pouco fez por aqueles que enviara à Flandres.

Mesmo o facto de os combatentes com patente de sargento ou de oficial serem um pouco mais atendidos pelo Estado não convenceu todos a virem para Portugal. Alguns ficaram em França e lá fizeram a sua vida, para terem os apoios que aqui lhes faltariam.