O estado das tropas em 8 de abril

por RTP

O Corpo Expedicionário Português (CEP) esteve na guerra menos tempo do que os seus grandes aliados ingleses, franceses ou russos. Mas cada soldado do CEP esteve nas primeiras linhas, submetido ao desgaste da guerra, muito mais tempo do que os militares aliados. Esta contradição marca o estado em que as tropas se encontravam na véspera do grande embate alemão.

As tropas portuguesas que se depararam à ofensiva alemã em 9 de abril de 1918 eram a expressão de um país atrasado e rural. O coronel Luís Alves Fraga descreve esse atraso, e alguns elementos de psicologia feudal que com ele foram sobrevivendo: a ligação do soldado à sua unidade não se fazia tanto mediante mecanismos institucionais e sim, em grande parte ainda, mediante factores de confiança e autoridade pessoal.



Tropa camponesa de guarda a um pântano
A historiadora Isabel Pestana Marques traça o perfil típico dos soldados do CEP - alguns voluntários, outros conscritos; a maioria rurais e analfabetos, que nunca tinham visto uma notícia de jornal, se não talvez numa taberna ou numa barbearia da aldeia, lido por quem soubesse.


Os jovens recrutados para o Exército não estavam habituados ao regime militar, como facilmente se verifica no registo de motivos para os castigos: uns aplicados a soldados que ficavam a dormir, que faltavam à formatura, que andavam com a sua arma de guerra a alvejar pássaros, outros que roubavam fruta.

A esta tropa mal preparada, é destinado um sector da frente relativamente calmo, sem alterações espectaculares no horizonte previsível, mas também mais insalubre do que os outros sectores.

O carácter pantanoso do terreno obriga a adoptar para as trincheiras uma originalidade que consiste na construção em altura. De outro modo, ao escavar a trincheira, rapidamente se encontrava água e era impossível prosseguir.

Doenças trazidas de casa, adquiridas na frente e simuladas
Entre as causas das baixas sofridas pelo CEP, a mais importante é a captura de soldados pelo inimigo. Em segundo lugar vêm as doenças. E, em terceiro, vêm os ferimentos sofridos quer pelo fogo inimigo quer por efeito dos gazes asfixiantes.

As doenças na origem de parte das baixas já vinham de Portugal, sem terem sido diagnosticadas ou tratadas durante a recruta, mas nem por isso deixando de afastar o soldado da frente. Outras eram doenças contraídas em França, especialmente devido à má alimentação e falta de higiene nas trincheiras.

O inverno de 1917-1918 é especialmente rigoroso e caracteriza-se por um aumento em flecha de doenças relacionadas com o frio, nomeadamente pneumonias, que causam mais baixas do que o fogo inimigo.


Havia também as doenças do foro psiquiátrico, por vezes somatizadas como doenças físicas. E havia também as automutilações, que os soldados infligiam a si próprios para evitarem o envio para as primeiras linhas.

Nas memórias de Maria do Céu Soares Machado e de José Carlos Soares Machado inclui-se o relato do avô, o alferes-médico Manuel Lourinho, sobre os expedientes mais ou menos astuciosos, e certamente muito criativos, que os soldados inventavam para baixarem à enfermaria sempre que se aproximava a data de serem enviados para a primeira linha das trincheiras.

Manuel Lourinho encarava de forma algo ambivalente o aumento do número de queixas de saúde da tropa na iminência de ser mandada para as primeiras linhas. Concentrava-se, assim, em tratar os soldados para que pudessem retomar a actividade.


Negligência e abandono no tratamento da tropa
Durante o mês de março, a tropa foi perdendo o ânimo para o combate, em grande parte devido a uma logística deficiente. Os soldados encontravam-se mal alimentados, mal equipados, mal fardados, com uniformes que se empapavam com a chuva. Sofriam de doenças dos brônquios devidas ao frio, muitas vezes dormiam ao relento, ou em construções arruinadas, enrolados nas suas mantas e deitados sobre fardos de palha.


Os soldados detestavam a dieta, tipicamente inglesa, que lhes era destinada nas trincheiras.

As tropas portuguesas eram as que tinham períodos de permanência mais longos na linha da frente, o que agrava exponencialmente as tentativas de fuga.

O descanso era insuficiente. E mesmo nos períodos que lhe eram destinados, na linha das aldeias, os soldados muitas vezes recebiam ordens para fazer trabalhos de manutenção das trincheiras.


O moral das tropas degrada-se aceleradamente a partir de janeiro de 1918, na sequência da cessação dos navios de transporte de tropas, em setembro de 1917, por decisão britânica. A partir daí, já só houve quatro navios.

A concessão das licenças é sempre objecto de um intenso tráfico de influências, em que ganha quem tiver as relações mais bem colocadas.

O problema das licenças torna-se uma pedra de toque para o ânimo dos combatentes. Para a maioria, é incompreensível que uns possam ir a Portugal e os outros tenham de permanecer nas trincheiras.


Os oficiais podiam ir de férias a Portugal, em comboio através da Espanha, ao passo que os soldados tinham de esperar a sua vez num transporte em navio, que não era fácil.

A assimetria na concessão de licenças vê-se ainda agravada após o golpe de Sidónio Pais, que prolonga as licenças de muitos oficiais, alguns dos quais não regressam de todo. A carência de quadros políticos no sidonismo é em parte suprida por oficiais da escolha do novo regime.

Os intensos bombardeamentos do mês anterior ao 9 de abril também agravam a usura moral das tropas da frente, que assistem à morte, ao estropiamento ou ao colapso psicológico de muitos camaradas, num ambiente infernal.

Assistem aos ferimentos, às mortes, à cegueira por ataques de gás dos camaradas atingidos a seu lado, e acham-se num "inferno".

Na correspondência dos soldados encontram-se muitas queixas contra os oficiais superiores, confirmando uma atitude de revolta por vezes também presente nos actos de indisciplina atomizados que são referidos como fundamento para punições diversas.