O "Soldado Milhões". Realidade e mito num símbolo português

por RTP

Aníbal Milhais tornou-se o celebrado "Soldado Milhões" por disparar com uma metralhadora pesada contra o avanço das tropas alemãs - ou cometeu um erro de percepção e foi autor de "fogo amigo" contra tropas portuguesas? A um século de distância, persiste a interrogação.

António Santos teve sempre reservas sobre o "Soldado Milhões", por considerar que ele teria abatido mais soldados portugueses que alemães.


Resistência heróica ou "fogo amigo"?
Gil Santos deixa em aberto se essas reservas de seu avô sobre o vizinho e contemporâneo "Milhões" seriam fundadas, mas considera muito natural que tenha havido "fogo amigo", nomeadamente contra soldados portugueses que se encontravam ainda a retirar da frente, num movimento que em meio da neblina podia facilmente ser confundido com o avanço dos alemães.

Em todo o caso, o neto do combatente e estudioso da guerra das trincheiras considera possível que Aníbal Milhais se tenha desorientado, no meio da confusão, e tenha disparado sem saber contra quem.


O historiador Manuel Albino Penteado Neiva, autor de numerosos trabalhos sobre a Brigada do Minho, admite que tenha havido valentia no comportamento de Aníbal Milhais, mas também considera que a história relatada na sua entrevista de 1967 à RTP é "uma história muito bem construída".


A historiadora Isabel Pestana Marques considera que, no meio do nevoeiro, do fumo, dos bombardeamentos de gazes asfixiantes, e com as máscaras postas, os combatentes tinham extrema dificuldade em distinguir os seus alvos. O risco de "fogo amigo" crescia, portanto, de forma exponencial.

O historiador militar Pedro Marquês de Sousa admite que a semelhança entre os fardamentos portugueses e alemães - ambos cinzentos - terá sido mais um entre vários factores de confusão e de dúvida que se registaram na madrugada e manhã de 9 de abril.

A historiografia alemã e a arte do disfarce
Em 1918, o Exército alemão não tinha o método de recorrer a disfarces. E, no contexto de uma ofensiva rápida, não haveria de qualquer modo o tempo necessário para experimentar esse método.

O historiador Bernd Ulrich não considera plausível que as tropas de assalto alemãs tenham usado um ardil como o que é suposto pelo "Soldado Milhões": à época não era comum a utilização desse tipo de ardis e, por outro lado, a rapidez com que a ofensiva se desenrolou harmonizava-se mal com o recurso a um método tão heterodoxo.

Pedro Marquês de Sousa vê também o recurso a disfarces pelos grupos de assalto alemães como implausível naquela época e numa ofensiva com aquelas características.


O historiador militar Christian Stachelbeck declara, por seu lado, que não tem conhecimento de quaisquer relatórios, memórias ou outras fontes em que se refira a utilização de uniformes inimigos por tropas de assalto alemãs.

Nesse sentido, considera mais provável que o soldado Aníbal Milhais, na confusão do combate, com as tropas cobertas de lama, tenha alguma vez confundido compatriotas seus com inimigos, como nessas situações acontecia com frequência, com efeitos recorrentes de soldados abatidos por friendly fire.