Um epílogo. Como sobreviveram os prisioneiros portugueses

por RTP

Depois do calvário das trincheiras e da catástrofe do 9 de abril, veio para mais de 6.500 militares portugueses o calvário dos campos de prisioneiros. Reduzidos pelos carcereiros alemães a rações de fome - que eram, no entanto, parecidas com as dos próprios carcereiros -, foram também abandonados e esquecidos pelo Estado português que os mandara para a guerra.

José Carlos Soares Machado é advogado e já esteve quase a ser bastonário da Ordem. Maria do Céu Soares Machado, é professora de Pediatria na Universidade de Lisboa e, no mesmo ano em que o irmão se candidatava à Ordem dos Advogados, esteve quase a ser bastonária da Ordem dos Médicos. A inspiração para se dedicar à medicina, recebeu-a do avô, o então alferes-médico Manuel Lourinho.

A mãe de ambos, Maria da Conceição Soares Machado, ouviu as histórias do pai muito antes e contou-as à RTP, vai para um decénio, quando já se aproximava do fim da vida.

Maria do Rosário Pereira Coutinho e Maria João Craveiro Lopes, ambas filhas do recentemente falecido coronel João Craveiro Lopes, são bisnetas do então tenente-coronel João Craveiro Lopes, que combateu na Flandres e foi aprisionado pelos alemães em 9 de abril de 1918.

Não chegaram a conviver com o bisavô ou a ouvir dele as histórias da guerra, mas viveram a tradição oral que a família passava de geração em geração sobre essa saga e tornaram-se estudiosas atentas do diário que o oficial expedicionário redigiu no campo de prisioneiros.

As histórias de Manuel Lourinho e Craveiro Lopes cruzam-se, confirmam-se e completam-se. Foram companheiros de cativeiro, percorreram os mesmos campos de internamento, partilharam as mesmas actividades. Lourinho relatou as suas experiências num livro que publicou muitos anos depois, Craveiro Lopes relatou-as num diário que por enquanto permanece inédito.
Uma bifurcação: oficiais para um lado, soldados para outro
O diário encontra-se datado a partir de 7 de abril, mas Craveiro Lopes dá a entender, mais adiante, que as entradas referentes aos primeiros dias já terão sido escritas no cativeiro, procurando reconstituir o que foram os acontecimentos imediatamente anteriores à batalha e durante a própria batalha.


O encorajamento dos companheiros de cativeiro por Craveiro Lopes iria prolongar-se muitos anos depois, na insistência que junto de Manuel Lourinho para que este publicasse as suas memórias do campo de prisioneiros.

O diário de Craveiro Lopes relata a marcha dos prisioneiros a pé, durante vários dias, até ao primeiro campo onde ficam internados. Pelo caminho, recorda que numa das suas escalas, a da fortaleza de Lille, um oficial alemão lhes ofereceu uma chávena de chá, num momento em que estavam sem comer havia vários dias.

No início, as únicas notícias que a família tinha sobre Craveiro Lopes referiam o seu desaparecimento em 9 de abril. Pensou-se por isso que ele poderia ter morrido. E essa convicção permaneceu até ser noticiado que estava, afinal, prisioneiro.

Também António Santos e seus companheiros, depois de capturados pelos alemães, são conduzidos em marcha até Lille. Mas, sendo soldados, os seus caminhos separam-se dos de Craveiro Lopes ou Manuel Lourinho, que vão para um campo de oficiais. De Lille irá António Santos para um campo no interior da Alemanha, e vão sendo separados. Da Alemanha, irá para um campo de prisioneiros na Polónia, e depois ainda para outro na Prússia Oriental (actual Rússia).

No dia seguinte à batalha de La Lys, também Manuel Lourinho é dado como desaparecido. Para a mãe, desaparecido equivale a morto. E nessa convicção irá permanecer durante uns dois meses, até receber notícias do filho. As notícias chegam espaçadamente, por via postal, em cartas que têm de ser sempre controladas pela censura, para não conterem queixas sobre o regime prisional.


A marcha entre Rastatt e Breesen faz-se a pé, debaixo de chuva, sem vestuário adequado, quase sempre sem botas adequadas e passando longos períodos sem qualquer alimento.

Penúria para prisioneiros e carcereiros
No campo de Breesen, a ração de carne que os prisioneiros recebem para uma semana equivale a uma refeição frugal dos nossos dias. Recebem além disso um quilo de pão. A penúria alimentar faz que alguns prisioneiros percam até 15 quilos de peso.

Eram-lhes distribuídos, por semana, cerce de de 150 gramas de carne, 125 gramas de açúcar e uma ração de pão que era das suas preocupações fundamentais e devia ser consumido parcimoniosamente até à semana seguinte. A sopa era uma água com cascas de abóbora a boiar e por vezes com uma carne era de foca "intragável". O chá e o café tinham o mesmo sabor, mas nomes diferentes, consoante se tratasse da manhã ou do meio-dia.
No campo, Craveiro Lopes e os outros oficiais foram tendo de adaptar-se à falta de comida, à inadequação do vestuário e foram tendo de lidar com a ausência de notícias de Portugal, que se manteve durante muito tempo e assumiu contornos dramáticos.


Craveiro Lopes diz no diário que lê muito e passa muito tempo deitado, a dormitar, porque na posição de deitado se mata melhor a fome.

Tudo serve para engrossar a sopa - a partir de certa altura as próprias cascas dos legumes utilizados, para não haver qualquer desperdício.

Numa das ocasiões em que é distribuída uma sopa mais substancial do que habitualmente, esta entorna-se e os prisioneiros procuram desesperadamente recolher do chão, com as suas malgas, aquilo que ainda for possível.


Uma das formas inventadas por Manuel Lourinho para contornar os rigores da censura postal, será a de enviar para a mãe uma fotografia em que tudo contradiz o texto explicativo. E contradi-lo principalmente a gritante falta de comida, naquilo que é suposto ser uma refeição.

No campo de prisioneiros, também a higiene é deficiente. Não há sabão e os portugueses apenas têm as meias com que foram capturados. Essas meias são lavadas, uma vez por mês, e, enquanto não secam, os pés têm de ser embrulhados em jornais para se defenderem do frio.

Mas os prisioneiros admitem que a penúria alimentar é comum a eles próprios e aos carcereiros: os alemães tão-pouco se alimentavam com abundância.



Como os prisioneiros se organizaram
Do Governo português, não vem qualquer ajuda aos prisioneiros. Só depois do Armistício irão receber a magra consolação de uma mensagem de felicitações do presidente Sidónio Pais pelo seu desempenho nos meses difíceis que passaram.


Logo no primeiro campo em que estiveram internados - o de Rastatt -, os portugueses elegem uma comissão para os representar junto das autoridades prisionais. A comissão é presidida pelo tenente-coronel Craveiro Lopes e dela faz parte, entre outros, Manuel Lourinho.

Além de representar os prisioneiros, a comissão empreende organizar as suas actividades quotidianas no cativeiro: cria, nomeadamente, uma biblioteca e também um grupo de teatro.

Craveiro Lopes, não sendo embora o oficial mais graduado, ficou a presidir à comissão, de que era o dirigente natural.

Fundamentalmente, a existência da comissão foi um paliativo para um dia a dia triste, sem notícias da família.


Entre as actividades da comissão, tornou-se habitual a leitura de um jornal alemão, traduzido para francês, com o propósito de pôr os prisioneiros ao corrente do que se passava no mundo. Organizou-se também uma biblioteca, um arquivo, uma secretaria, bem como sessões de teatro e saraus. Os prisioneiros liam muito e a biblioteca baseou-se no princípio de cada um pôr os seus livros em comum e pagar uma pequena contribuição para adquirir obras que fosse possível.



Nos campos de prisioneiros, constata-se que as autoridades portuguesas tinham abandonado à sua sorte os militares capturados pelos alemães. Mas a constatação torna-se especialmente notória depois do Armistício, quando a Alemanha vencida está obrigada a libertar os prisioneiros e os países de origem devem organizar o seu repatriamento.

Mesmo depois da fuga para a Holanda, Manuel Lourinho, Craveiro Lopes e os seus companheiros apenas beneficiam da ajuda do diplomata António Bandeira, muito por iniciativa pessoal. A Embaixada a que se dirigem para obterem ajuda é a de Espanha.

Por seu lado, António Santos recebe em 11 de novembro pelos jornais a notícia do Armistício e, ao regressar ao campo de prisioneiros, constata que os seus camaradas de cativeiro de outros países aliados estão em vias de regressar, mas ele não tem ninguém que trate do seu regresso. Teve de simular uma identidade italiana, para poder partir em direcção à Polónia, donde depois seguiria para a Dinamarca.
Uma visão diferente sobre o inimigo
A neta e o neto de Manuel Lourinho recordam que o prisioneiro ganhara algum respeito pelos alemães, a contrastar com uma certa antipatia que lhe mereciam os ingleses. Ao neto, também fazia confusão que o avô mostrasse simpatia por facetas do inimigo, os alemães; e, ao mesmo tempo, fosse reservado ou hostil face a muita coisa que via entre os "bons", os ingleses.


Entre os factos que citava, abonatórios do seu apreço pelos alemães, está o de ter sido muito bem tratado, quando caíu gravemente doente na fortaleza de Lille, na marcha dos prisioneiros para a retaguarda alemã.

Pela descrição, terá tido uma pneumonia. Do seu internamento hospitalar, recordava comida abundante, existência dos medicamentos necessários, pessoal médico competente e atencioso - também para com os prisioneiros.


No campo de prisioneiros, os militares portugueses são autorizados a passear pelas redondezas, desde que assinem uma declaração, comprometendo-se sob palavra de honra a não fugirem.

Por ocasião da morte de um oficial português, os seus companheiros foram sepultá-lo e viram-se acompanhados por uma força alemã, com banda de música, que vinha também homenagear o falecido. Craveiro Lopes apresentou depois o agradecimento dos prisioneiros ao comando do campo.


Um outro facto que citava Manuel Lourinho era a ajuda que os prisioneiros tinham recebido de um sargento alemão, quando decidiram fugir para a Holanda, já depois do Armistício.