Tensão entre Paris e Roma. França convoca embaixador em Itália

“Ataques sem precedente”. É assim que Paris está a encarar posições assumidas pelo Governo italiano sobre temas críticos para o poder político francês, da crise imigratória às sucessivas vagas de protestos dos coletes amarelos. Esta quinta-feira o Ministério dos Negócios Estrangeiros de França decidiu mesmo convocar para consultas o embaixador em Roma, Christian Masset, num gesto diplomático que atesta a tensão.

Carlos Santos Neves - RTP /
O ministro italiano do Interior, Matteo Salvini, rosto da extrema-direita, manifestou a expectativa de que os franceses façam cair “um Presidente muito mau”, numa investida contra Emmanuel Macron Christophe Ena - Reuters

Nos termos do comunicado difundido pelo Quai d’Orsay, em causa estão “declarações ultrajantes”, além de “ataques sem fundamento e “acusações repetidas”, por parte do Executivo italiano.A tensão entre Paris e Roma perdura há vários meses, num quadro que o jornal francês Le Monde descreveu em janeiro como “um lento divórcio”.


A porta-voz do Ministério francês dos Negócios Estrangeiros sublinha que esta é “uma situação grave” que “não tem precedente desde o fim da guerra”.

“As últimas ingerências constituem uma provocação suplementar e inaceitável. Elas violam o respeito devido à escolha democrática, feita por um povo amigo e aliado. Elas violam o respeito devido entre dois governos democrática e livremente eleitos”, lê-se no texto de Agnès Von Der Mühll, citado pelas imprensas francesa e italiana.

O Ministério francês havia já reprovado, na véspera, o que considerava ser uma “provocação inaceitável”: um encontro, na terça-feira, entre o vice-primeiro-ministro italiano Luigi Di Maio - dirigente do Movimento 5 Estrelas, a força política antissistema que integra, com a Liga, de extrema-direita, a atual aliança governativa transalpina - e elementos do movimento dos coletes amarelos em França.

“A campanha para as eleições europeias não chega para justificar a falta de respeito por cada povo ou pela sua democracia”, acentua-se na nota do Ministério francês da Europa e dos Negócios Estrangeiros.


“Todos estes atos criam uma situação grave que faz questionar as intenções do governo italiano na sua relação com a França. À luz desta situação sem precedente, o governo francês decidiu convocar o embaixador de França em Itália para consultas”, remata o Quai d’Orsay.
O “franco das colónias”

Outro ponto escaldante da dissensão entre italianos e franceses ocorreu a 20 de janeiro. Com o mesmo protagonista. Luigi Di Maio afirmava então que a França “empobrecia África” e agravava a crise migratória.

O número dois do Governo de Giuseppe Conte atirou-se em seguida ao franco CFA, qualificando esta moeda usada em países africanos, a maioria dos quais antigas possessões francesas, como “franco das colónias”.

Estas declarações levaram então o Ministério francês dos Negócios Estrangeiros a chamar a embaixadora italiana em Paris, Teresa Castaldo, para lhe fazer chegar um protesto oficial contra declarações “inaceitáveis”.

Por duas ocasiões, em março e em junho de 2018, o embaixador francês em Roma foi igualmente convocado pelo Governo italiano.

Também o ministro italiano do Interior, Matteo Salvini, rosto da extrema-direita, manifestou publicamente a expectativa de que os franceses façam cair “um Presidente muito mau”, numa dura investida contra Emmanuel Macron.

Salvini tem procurado arregimentar movimentos de extrema-direita tendo em vista as eleições de maio para o Parlamento Europeu. Entretanto, perante o gesto da diplomacia francesa, o ministro italiano veio alegar que não pretende entrar em conflito com Paris, acenando mesmo com a ideia de um encontro com Emmanuel Macron.

Ainda assim, o titular da pasta do Interior no Executivo italiano elencou questões "fundamentais" às quais, no seu entender, Paris deve dar resposta: parar de "empurrar" imigrantes para Itália, agilizar os controlos fronteiriços e entregar às autoridades de Roma 15 militantes italianos de extrema-esquerda que procuraram refúgio em solo francês nas últimas décadas.
Tópicos
PUB