Aumento de casos de SIDA na Rússia põe em risco luta contra o vírus

O Onusida, programa das Nações Unidas que acompanha o evoluir do vírus HIV, alertou para o perigo da epidemia recrudescer, após um declínio regular desde o pico atingido em 1997. Nos últimos anos a tendência de descida parou, especialmente devido ao aumento do número de casos na Rússia.

Graça Andrade Ramos - RTP /
Um quadro de prevenção do SIDA num centro de troca de seringas em Queens County, Nova Iorque, EUA. Shannon Stapleton - Reuters

A ONU tem por objetivo erradicar o Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH) mas, de acordo com um relatório de 286 páginas, publicado esta terça-feira pelo Onusida, desde 2010 a tendência descendente de disseminação deteve-se e em certas regiões até se inverteu.

Entre 2010 e 2015 terão sido infetados anualmente 1,9 milhões de adultos com o vírus que causa o Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA).
Desde o aparecimento da epidemia há mais de 30 anos, morreram 35 milhões de pessoas de doenças ligadas ao vírus VIH.
A maioria dos novos casos surgiu na Europa de leste e na Ásia central, onde nesse período o número explodiu ultrapassando 57 por cento de aumento. Oitenta por cento dos novos casos registaram-se na Rússia e 10 por cento na Ucrânia.

As instituições russas têm preferido focar-se mais no tratamento do vírus do que na prevenção da sua disseminação. Moscovo também proibiu a metadona - um substituto da heroína que, de acordo com especialistas, reduz o risco de contaminação entre os toxicodependentes. Na Rússia a homossexualidade é reprimida, o que pode levar pessoas potencialmente infetadas a esconder sintomas.

"Esta situação mete-nos medo e devemos agir rapidamente", declarou Michel Sidibé, diretor do Onusida, numa conferência de imprensa em Genebra. "Senão, a epidemia poderá novamente causar perdas humanas e económicas enormes."Em 2015 o número de seropositivos na Rússia ultrapassou a barreira do milhão e mais de 200.000 deles já morreram, de acordo com o Centro Federal Russo da luta contra o SIDA.

Nos países das Caraíbas a taxa de progressão entre 2010 e 2015 atingiu os nove por cento, no Médio Oriente e no norte de África foi de quatro por cento e nos países da América Latina de dois por cento.

Estão registados 36,7 milhões de portadores do vírus, vivendo a maioria na África sub-sahariana. Aqui, três quartos dos novos casos registam-se entre jovens dos 15 aos 24 anos, rapazes e raparigas, que não têm acesso aos serviços de luta contra o vírus e que são estigmatizados.

Também nas Filipinas o número de novos casos se regista nas camadas mais jovens da população.
Regresso da epidemia
As pessoas mais expostas ao vírus são homossexuais, as que se prostituem e os seus clientes, os toxicodependentes de drogas injetáveis e os detidos, refere o relatório, sublinhando que só a prevenção consegue travar a epidemia, enquanto não surge uma vacina ou um tratamento definitivo.

"Se não controlarem a epidemia nestes grupos, porque são marginalizados, excluídos, criminalizados, verão a epidemia estender-se a toda a população", avisou o diretor do Onusida.

De acordo com o relatório, os homens que mantêm relações homossexuais e os toxicodependentes de drogas injetáveis correm um risco 24 vezes maior de contrair o vírus do que o resto da população. As pessoas que se dedicam à prostituição correm um risco 10 vezes superior.

"Se as pessoas não se sentem seguras ou não podem ter acesso aos serviços de prevenção do VIH, nunca veremos o fim desta epidemia", referiu Michel Sidibé.

"Temos uma janela de oportunidade de cinco anos. Se a falharmos, vamos assistir a um regresso da epidemia e não seremos capazes de lhe por cobro até 2030", alertou o responsável.

Em contraste com a Europa de leste e Ásia central, na África do leste e do sul a epidemia regrediu quatro por cento e, na Ásia-Pacífico, três por cento, enquanto na Europa ocidental e central e na América do norte o SIDA se mantém estável.

Desde 2001 que a incidência do vírus na infância está em declínio e a tendência mantém-se.
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