Gentil Martins distinguido com prémio de carreira Miller Guerra

Gentil Martins distinguido com prémio de carreira Miller Guerra

Aos 84 anos, António Gentil Martins, cirurgião pediátrico e plástico, recebe a maior distinção atribuída pela Ordem dos Médicos em Portugal: o Prémio Miller Guerra.

Nuno Patrício e Pedro A. Pina - RTP /
António Gentil Martins, médico cirurgião pediátrico e plástico Foto e imagem: Pedro A. Pina - RTP

O site da RTP esteve à conversa com este médico de renome e dá a conhecer um pouco da vida e do percurso profissional de Gentil Martins.
"Soube que queria ser médico quando assisti a um acidente"
António Gentil Martins nasceu em 1930. Na juventude, sagrou-se campeão de Portugal em espingarda de guerra e carabina livre, tendo participado nas Olimpíadas de 1960, em Roma, na modalidade de pistola automática a 25 metros.

Licenciou-se em Medicina e Cirurgia pela Faculdade de Medicina de Lisboa em 20 de julho de 1953 e passou pelo Reino Unido nos primeiros anos de profissão, onde se especializou em cirurgia pediátrica.

Dividiu a carreira entre o Instituto Português de Oncologia, criado pelo seu avô materno Francisco Gentil, e o Hospital Dona Estefânia.
Mais tarde, em 1977, assumiu a presidência da Ordem dos Médicos, tendo cumprido três mandatos. Foi também presidente da Associação Médica Mundial.

Hoje, com 84 anos, Gentil Martins conta com alegria e boa disposição como decidiu abraçar a carreira médica e como as origens familiares foram fundamentais em todo o processo profissional.


"Eu queria fazer tudo mas acabei por me dedicar à medicina"
António Gentil Martins recorda o pai como uma referência, embora tenha ficado sem essa figura com apenas três meses de vida. O cirurgião afirma que muitas das artes que praticou se deveram a uma tentativa de honrar o pai falecido e demonstrar que tudo se pode fazer bem quando se trabalha com a alma.

Ainda passou por uma carreira atlética, tendo praticado modalidades como voleibol, na qual foi campeão nacional, ténis, ténis de mesa, badmington e tiro de precisão com presença nos Jogos Olímpicos em 1960.

Nos dias de hoje, confessa que não pratica mais desporto porque não tem condições, mas mantém uma réstia de saudade.



"Dediquei a vida à medicina prejudicando a família"
Ser diferente é para Gentil Martins condição essencial na medicina. Não se mostra arrependido por ter dedicado a maior parte da sua vida à carreira, mas sente que poderia ter dado mais tempo à família.

Explica que o período mais difícil foi quando, além da normal profissão, teve de estar à frente da Ordem dos Médicos. Com oito filhos e 25 netos, continua a exercer medicina, mas a família está agora em primeiro lugar.


"Um rapaz que tinha cancro na cara e a separação de siameses"
Foi numa segunda-feira, 30 de outubro de 1978, no bloco operatório do Hospital de D. Estefânia, em Lisboa, que uma equipa de cirurgiões coordenada por Gentil Martins efetuou um dos maiores feitos da história da medicina em Portugal: separar com sucesso duas crianças siamesas.

Um feito na altura muito exigente, que envolveu muitas horas de trabalho. E que resultou na separação pela barriga e consequente sobrevivência de duas meninas, hoje com 37 anos.

Outras histórias clinicas formam o seu currículo, como são alguns dos casos retratados pela publicação The British Journal of Surgery de julho de 1965, em que o próprio Gentil Martins, então no Instituto Português de Oncologia (IPO), aplicou difíceis práticas cirúrgicas a quatro crianças que sofriam de tumores da face.

A operação mais delicada envolveu um rapaz de 11 anos, a quem teve de remover por completo a pele da cabeça, tendo esta sido reposta com enxertos do próprio corpo.

Separou com sucesso o primeiro par de siameses em Portugal, em 1978, e desenvolveu diferentes técnicas cirúrgicas inéditas.


Prémio Miller Guerra e liberdade de escolha
Um prémio com um simbolismo especial - é assim que Gentil Martins caracteriza o prémio Miller Guerra. Nome de um médico, também ele antigo bastonário da Ordem, que contribuiu para a criação de um relatório que deu origem às carreiras da profissão.

Um relatório que Gentil Martins diz não estar a ser respeitado, porque existem princípios fundamentais expressos no documento que não estão a ser praticados. Por exemplo, o princípio de que o utente disponha de liberdade de escolha face do local onde quer ser tratado; o pagamento por ato médico; um Serviço Nacional de Saúde integrado; a não exclusividade dos médicos à profissão.

Gentil Martins critica o atual SNS, que considera errado, e cita alguns países onde este tipo de sistema é funcional. Reconhece que este prémio Miller Guerra é especial, apesar de ter recebido ao longo da carreira várias condecorações.



"Gostaria que o sistema atual mudasse"
Gentil Martins diz que, sem liberdade, o SNS não é funcional e afirma mesmo que “se fala muito numa revolução que se fez e na saúde não há. A ministra Ana Jorge quando era ministra declarou que o sistema atual era incompatível com a liberdade”.

O médico, apesar da sua idade, gostaria ainda de ver os valores defendidos por Miller Guerra aplicados no Serviço Nacional de Saúde. “Todos falam em liberdade, mas nem todos a usam de maneira certa”, diz.



"O meu maior prémio é a consciência tranquila"
Apesar de ter sido agraciado com várias condecorações ao longo da sua carreira profissional - como por exemplo, em 2001, a Medalha de Ouro do Ministério da Saúde, ou a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique em 2009, entre outras distinções nacionais e internacionais -, António Gentil Martins afirma que o maior prémio que pode ter é estar de consciência tranquila.




O que é o Prémio Miller Guerra
João Pedro Miller de Lemos Guerra (1912–1993) foi professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, médico e político. Foi o sétimo bastonário da Ordem dos Médicos, de 1968 a 1975.

Em finais da década de 1960, integrou a chamada Ala Liberal da Assembleia Nacional, que abriu caminho às transformações democráticas durante a Revolução de 25 de Abril. Posteriormente, foi deputado à Assembleia Constituinte de 1975.

A Ordem dos Médicos e a Fundação Merck Sharp Dohme promovem, pelo segundo ano, o Prémio Miller Guerra, que desta vez distingue um médico de Carreira Hospitalar, ao qual será atribuído um prémio de 50 mil euros. A distinção tem como finalidade premiar a vertente humanista da medicina e também homenagear a memória do professor que lhe empresta o nome.

Destina-se, assim, a galardoar um profissional médico que se distinga por uma carreira exemplar dedicada ao serviço dos doentes e ao progresso da assistência médica em Portugal, privilegiando não só a vertente tecnológica, mas sobretudo a atitude humanista na prática clínica.
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