Zapatero avisa que a crise dos pepinos vai sair cara a alguém

O PM José Rodríguez Zapatero deixou um recado à Comissão Europeia, um dia depois de Berlim ter levantado as suspeitas sobre o setor hortícola espanhol na questão dos pepinos contaminados com a bactéria E.coli. Zapatero aponta a ineficiência de Bruxelas e promete exigir uma reparação “suficiente”. Com a conduta alemã posta em causa, Moscovo cortou da ementa as importações do setor oriundas da Europa e acusou a UE de ter legislação que “não funciona”.

RTP /
“Desde que a ministra de Hamburgo descartou que a infeção fosse consequência de pepinos espanhóis, (a Comissão) deveria ter agido com mais contundência e rapidez” Juanjo Martin, EPA

Uma infeção com a bactéria E.coli fez já 18 mortos (17 na Alemanha e um na Suécia) e levou ao internamento de milhar e meio de doentes, colocando inicialmente todas as suspeitas no setor hortícola espanhol, embargado durante mais de uma semana e a braços com uma crise para a qual não há um fim à vista. Ontem, depois de análises nos laboratórios espanhóis e alemães terem dado resultados negativos, Berlim levantou as suspeitas que pusera sobre os espanhóis.Crise da bactéria E.coli:

Quinta-feira, 26: Surto de E.coli chega à imprensa europeia, culpas atribuídas aos pepinos espanhóis; UE lança um alerta alimentar e Madrid identifica empresas de Málaga e Almeria e trava lotes que estão para ser comercializados
Sexta-feira, 27: Espanha analisa lotes de produto e diz que não há provas suficientes para primeiras suspeitas; a UE admite outros focos e que se precipitou a apontar o dedo a Espanha
Terça-feira, 31: Alemanha admite que pepinos espanhóis que analisou não contêm a E.coli; Madrid exige que a sua agricultura seja indemnizada
Quarta-feira, 1: União levanta o alerta sobre as empresas espanholas


Neste momento, a procura do dito primordial foco de infeção está a ser feita fundamentalmente na Alemanha, que deverá começar a testar todos os lotes e as mais variadas verduras. O jornal El País adianta que as buscas estão já a ser alargadas à água engarrafada.

Bruxelas foi lenta e assustadiça
Para o chefe do governo espanhol, depois de oficialmente afastadas essas suspeitas, que se arrastaram por uma semana, a reação da Comissão Europeia foi lenta e inadequada: “Desde que a ministra de Hamburgo descartou que a infeção fosse consequência de pepinos espanhóis, (a Comissão) deveria ter agido com mais contundência e rapidez”, considerou Zapatero.

Uma semana após ter rebentado esta crise dos pepinos, há dois itens que não deverão ficar fechados tão depressa, mas com os quais a Comissão Europeia e a União estão obrigados a começar a lidar já: a credibilidade da União em mercados como o russo, por exemplo; estimar e compensar as perdas dos agricultores espanhóis, sobre os quais foi colocado um anátema difícil de eliminar.

União pede a Moscovo para reconsiderar
Quanto ao primeiro problema, Moscovo já havia vetado as importações de Alemanha ou Espanha em termos de verduras frescas; agora acaba de alargar o veto a toda a União Europeia, no que representa uma perda de milhões de euros à partida. Em 2010, as compras russas representaram 594 milhões de euros. A comissão já escreveu ao Kremlin a pedir para que a medida fosse reconsiderada.

A decisão russa não deverá ter para já qualquer alteração, mexendo ao mesmo tempo com questões que ultrapassam a matéria substantiva. Refere a nota de embargo que “entra em vigor esta manhã uma proibição da importação de verduras frescas dos países da EU”, acrescentando logo após que “esta questão demonstra que a tão elogiada legislação sanitária europeia, à qual é pedido que se una a Rússia, não funciona”. A Organização Mundial de Saúde acaba de anunciar que a bactéria responsável por 18 mortes e milhar e meio de doentes é uma estirpe da E.coli "nunca antes vista"

Zapatero não deverá desistir de avultadas indemnizações
Quanto à questão das compensações monetárias, a reação quase irada do chefe da Moncloa antecipa um pedido em larga escala de indemnizações para os agricultores espanhóis a braços com uma produção parada desde que há uma semana rebentou a crise dos pepinos (apesar de a UE ter levantado o alerta sanitário, 10 parceiros do 27 continuam sem fazer qualquer encomenda a Espanha).

Sem concretizar para onde vai enviar essa carta – se para os escritórios da União se para Berlim – Zapatero exige “uma clarificação das regras do jogo” por parte da Comissão Europeia e garante que Espanha não ficará sem uma indemnização substancial, “suficiente” nas palavras do primeiro-ministro espanhol reproduzidas pelo El País.
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