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Chicas Poderosas a mudar o paradigma da mulher jornalista

Chicas Poderosas a mudar o paradigma da mulher jornalista

São mulheres, são poderosas, querem mudar o mundo e contam com os homens para o conseguir, nem que para isso tenham de mudar o próprio chip. Numa área como as tecnologias digitais, fortemente dominada por homens, as Chicas Poderosas querem alterar o paradigma da jornalista e ensiná-la a contar histórias digitalmente. Em três anos, já conseguiram chegar a dez países da América Latina. Em entrevista ao site da RTP, Mariana Moura Santos, fundadora do movimento, explica o que está em causa.

Sandra Salvado, Pedro A. Pina - RTP /
Pedro A. Pina - RTP

Chicas Poderosas chegam pela primeira vez a Portugal pela mão de Mariana Moura Santos, a designer portuguesa de 33 anos que fundou um grupo de “chicas” e “chicos” em 2013 na Costa Rica.

O movimento quer aproximar os jornalistas das novas realidades digitais e dar-lhes meios para progredirem na carreira ou lançarem projetos independentes. Já se transformou numa rede que envolve mais de 2.500 pessoas em mais de dez países da América Latina.

Na bagagem traz a experiência dos quatro cantos do mundo, com o foco principal de promover a igualdade de género e até alargar o projeto a causas sociais. Tudo começou em 2013, quando Mariana produzia conteúdos no departamento de tecnologia do jornal britânico The Guardian, na sua grande maioria dominado por homens. Aqui passou por uma experiência marcante, a cobertura do caso WikiLeaks. 

O que são as Chicas Poderosas?

Chicas Poderosas nasceu de uma necessidade de haver mais mulheres a trabalhar em tecnologia e de tentar mudar o chip da cabeça das mulheres que acham que não conseguem chegar lá. Não sou só eu. É um grupo enorme de embaixatrizes e embaixadores por toda a região Latino-americana, em que trazemos mentores, desde os Estados Unidos, da Europa, até da própria América latina onde trocamos os mentores de país para país, em que tentamos dar o acesso gratuito e o mais direto possível a conteúdos e talentos que normalmente na América Latina não são tão acessíveis.

A razão pela qual se chama Chicas Poderosas é porque há imensos eventos como por exemplo Hacks & Hackers, que significa por na mesma sala jornalistas e programadores para juntos poderem fazer plataformas de informação, seja uma aplicação e telemóvel, seja uma aplicação de ecrã, como é que vamos contar uma certa história que tenha muitos dados, por exemplo, e esta é uma conversa que tem que ser tida entre homens e mulheres.

O que acontece é que quando há eventos que se chamam Hacks & Hackers ou que têm uma denominação bastante técnica, 90 por cento das pessoas que vão são homens, ou seja, há apenas dez por cento de mulheres interessadas em tecnologia. Acabam por se retrair e não ir, por medo de falharem. Então, só o facto de fazermos um evento que pode ser igualzinho àquele evento de tecnologia, mas pôr-lhe um nome feminino, e foi Chicas porque Chicas é tipo miúda, rapariga, mas não quer dizer que sejam só mulheres (…) Nós vamos ser boas mas não é preciso seremos as melhores, assim que começamos. Nós podemos começar do zero e crescer juntas.

Como é que surgiu este projeto e quando?

Eu de 2010 a 2013, trabalhei no jornal The Guardian, onde eu era uma de três mulheres a trabalhar no departamento de tecnologia, que nessa altura tinha 180 profissionais. Logo aí, nós víamos uma representação mínima de mulheres em tecnologia e quando eu fui para a América Latina ganhei uma bolsa do Centro Internacional para Jornalistas para ir desenvolver um plano de técnicas e como ensinar a contar histórias digitalmente, com as técnicas que eu tinha aprendido no The Guardian.

Ao chegar à América Latina, apercebi-me não só havia uma distância enorme entre as mulheres e a tecnologia, como uma distância enorme ou muitas vezes inexistente do acesso das mulheres às áreas de poder nas salas de redação. As histórias relacionadas com mulheres e do ponto de vista das mulheres não tinham voz, tanto a nível de poder como a nível de tecnologia.

Muitas das jornalistas, na maioria das redações têm jornalistas e redatoras mulheres, mas o que acontece é que elas fazem investigação, escrevem a história e depois mandam para um edifício de tecnologia e alguém que ponha a história online. Ou seja, havia uma desconexão imensa entre as jornalistas e as suas histórias e muito mais os seus leitores. Essa comunicação é essencial.

Há muitos temas que os homens, pura e simplesmente, não se dedicam ou não lhes parece importante. Dando voz a esse tipo de temas, muitas vezes conseguimos chegar a resolver problemas sociais, problemas de crise. Por exemplo, na Colômbia, o Estado cortou a água de uma determinada região indígena, ou seja, os rios deixaram de chegar a áreas remotas, onde plantas deixaram de crescer e as crianças começaram a morrer por falta de nutrição. Os jornalistas parece que não chegavam a essas áreas, ou por falta de interesse ou porque era uma região de minoria. Eram vozes que não interessavam muito dar a conhecer.

O que nós fizemos com as Chicas Poderosas foi levar um grupo de Chicas Poderosas e Chicos, pois somos mulheres e homens que fazem parte deste grupo, e fomos ensinar as técnicas de jornalismo digital às comunidades indígenas para eles próprios, através dos canais abertos que há, poderem contar as suas histórias. É uma democratização da informação e do acesso à comunicação pública.

Como é que aproxima as mulheres das novas realidades digitais?

Para já é mostrar que não é um bicho de sete cabeças e que toda a gente pode fazer. Por exemplo, um projeto do New York Times, que foi o Snow Fall, que foi um dos projetos muito falados digitalmente porque era uma narrativa vertical, em que ias fazendo o scroll da página e iam entrando vídeos, ia entrando uma entrevista, depois ia entrando uma animação gráfica a mostrar como é que era a neve a cair na montanha. Isto é uma coisa espetacular feita por uma equipa de 50 programadores no New York Times, que são muito à frente e ninguém consegue copiar. Não é nada disso.

Nós trouxemos esse projeto para as Chicas Poderosas. Cortámos aquilo e dissemos: como é que aquilo foi feito? Isto teve filme em helicóptero nas montanhas, teve um produtor de cinema, teve pessoas a escreverem textos e a escreverem scripts e a fazerem entrevistas em vídeo, teve fotógrafos a fazer galerias fotográficas e depois é só juntar tudo. Usa-se neste caso, em termos técnicos, é HTML, JavaScript, que são técnicas de código para fazer páginas de websites. Nós não precisamos de saber fazer código mas podemos trabalhar com programadores, que podem ser homens ou mulheres, mas temos que saber como é que se faz aquela página e partir do momento que sabemos como é que se montam as peças, não temos que ser especialistas em cada uma das partes, mas temos um todo, uma perceção.

Nós não temos que saber fazer tudo. Um dos pontos principais das Chicas Poderosas é colaboração e não só competição. Hoje em dia, no jornalismo digital, uma pessoa tem que ser um unicórnio. Tem que saber escrever, saber fazer código e design mas na verdade é difícil sermos bons a tudo. Portanto, o ponto de caramelo é quando conseguimos colaborar com pessoas e saber trabalhar em equipa.

E na bagagem, traz um percurso profissional diversificado?

Eu estudei em Belas Artes, em Lisboa. Passei por escultura e depois por design de equipamento e, finalmente, design de comunicação. Eu sempre fui muito indecisa. Na verdade comecei por estudar biologia e depois mudei para artes. No quinto ano da Faculdade fui para Erasmus em França. Depois fui para Berlim, onde tive o meu primeiro trabalho oficial, como animadora, fazia animação para publicidade. Senti uma enorme necessidade de me emergir em meios digitais e como é que ia funcionar a internet e fui para Estocolmo fazer um mestrado. No final desse curso fui a Londres fazer entrevistas a diretores de tecnologia de vários meios de comunicação e foi no The Guardian, que fiz uma entrevista sobre qual é o futuro da Internet, ao que o diretor me disse: Se tu gostas tanto do The Guardian porque é que não vens para cá trabalhar?

E a questão é que eu nunca me tinha dado autorização de sonhar ir para o The Guardian. Eu fiquei chateada comigo mesma. Como é que eu nunca pensei nisso e nunca pus essa hipótese. Foi aí que pensei, eu tenho que criar qualquer coisa para pessoas como eu. Afinal eu consigo. Está aqui a prova. Foi um momento de luz nesse momento que eu fui para o The Guardian. Fiquei lá três anos.

O meu primeiro projeto foi WikiLeaks, que eu nem sabia o que é que era. Eu vim da Suécia para fazer o WikiLeaks, para fazer a visualização dos dados. Tive sorte na vida. Foi um momento diferenciador na minha vida. Tive um mentor, Alistair Dunt, que era um programador inglês que se dedicou a mim 100 por cento, durante três anos que trabalhamos juntos. Ele era programador, eu era designer e ele ensinava-me como é que eu havia de fazer o meu design, para encaixar com o código dele.

Eu comecei a fazer design para programação, ou seja, para aplicações interativas. Foi a melhor escola que eu tive, a melhor aprendizagem. Então no Chicas Poderosas pensámos: vamos replicar este modelo de mentor chip, em que vou buscar pessoas de outras empresas para virem para a América Latina ensinar diferentes coisas como, por exemplo, como sacar dados da Internet, como fazer a manipulação de dados para fazer visualização de dados, como fazer filme com o telemóvel, em áreas remotas que as pessoas não têm acesso a câmaras caras, como fazer redes sociais ou como comunicar com a comunidade.

Qual é a leitura que faz do jornalismo digital/tradicional (impresso)?

Quando eu estava no The Guardian, a impressão estava a descer a uma força brutal e o jornal tornou-se num jornal digital first, primeiramente digital. Passado um ano, já se transformou em mobile first, primeiramente para telefones móveis. Portanto, vai-se adaptando ao consumo.

As pessoas, cada vez menos, compram o diário impresso e cada vez mais consomem on the fly. Vão em movimento e consomem uma notícia aqui, outra ali. Acho que cada vez mais, os meios de comunicação se estão a adaptar para ter isto que se chama snack beats of information, que são pequenos snacks de informação que podem ser consumidos numa só mordida. Não é uma refeição completa que temos que estar ali a ler uma ou duas horas.

Acho que o impresso está a decair cada vez mais e vai ser um produto Premium, ou seja, só os muito ricos vão poder comprar o diário. Cada vez mais estamos a dirigir-nos para um mundo completamente digital.

Quais são os desafios do jornalismo digital?

Os publicitários agora já não investem dinheiro, como investiam em ter um espaço num jornal impresso porque hoje em dia qualquer marca pode ter o seu Facebook, o seu Twitter. Pode ter a sua comunicação digital, sem ter que pagar uma marca jornalística para passar a mensagem e dar aquele cunho de validação.

Hoje em dia, as pessoas podem fazer a sua própria exposição digital e, muitas vezes, o que acontece agora é que marcas estão a convidar jornalistas para escreverem conteúdos jornalísticos dentro das marcas. Chama-se o Branded Content, que é o conteúdo com o ângulo da marca. Contar uma história, mas em vez de contar uma história com aquilo que está a acontecer na realidade, vamos contar a história de uma pessoa que vende este tipo de árvores, qual é a história desta árvore e como é que a podemos vender.

O jornalismo e a publicidade cruzam-se e agora andam muito de mãos dadas. Acho que este é o maior desafio: Como é que o jornalismo vai fazer dinheiro? Se já não temos a publicidade, qual é a forma com que vamos monitorizar a nosso trabalho, porque eu acho que o jornalismo nunca foi tão importante. A questão é como é que nós pagamos aos jornalistas para fazer o seu trabalho, quando há tantos canais abertos?

Que outra forma interessante há para se contar uma história, sem ser a escrevê-la?

Acho que, por exemplo, o Facebook Live, que é uma forma em que nós podíamos estar as duas sentadas numa conversa (uma coisa bem falada, antes de publicar), em que todos os usuários pudessem estar na nossa conversa e tu estás a fazer as perguntas que preparaste para esta entrevista, mas eles próprios devem ter outras que se calhar tu não sabes que eles têm.

É abrir o canal de comunicação para o que é que os usuários ou os leitores querem saber. Por exemplo, acho que devia ser interessante ter esta conversa e permitir que mais gente fizesse parte dela.
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