Senhor Facebook faz "meia culpa" e não se compromete com legislação

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Os trabalhos duraram cinco horas, tempo suficiente para evidenciar a fragilidade da rede quanto à potencial exposição dos dados pessoais
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Mea culpa, evasão a perguntas incómodas, candura nas respostas pessoais. Mark Zuckerberg mostrou-se preparado para jogar em todos os tabuleiros que lhe puseram à frente na audição perante o Senado dos Estados Unidos. Sem promessas de apoio a nova legislação para a área, não teve problemas em pedir desculpas por não ter sido capaz de proteger os dados pessoais dos utilizadores. Após cinco horas com mais de quatro dezenas de questões na terça-feira, o presidente executivo do Facebook regressa agora ao Capitólio para enfrentar a Câmara dos Representantes.

A sessão de terça-feira foi marcada por vários pontos, todos eles espoletados pelo escândalo Cambridge Analytica, a empresa britânica que usou uma aplicação para obter dados de 87 milhões de utilizadores do Facebook e que foram, posteriormente, usados em campanhas de manipulação durante as presidenciais norte-americanas de 2016.A empresa britânica Cambridge Analytica usou uma aplicação para obter dados de 87 milhões de utilizadores.

Sublinhando que é ele o criador e principal gestor do Facebook, Zuckerberg assumiu a responsabilidade por essas falhas, garantindo que estão a ser trabalhadas medidas para evitar o mau uso das potencialidades da rede social. Um ponto em que não gaguejou quando apresentou um pedido de desculpas por a sua empresa não ter tido capacidade para evitar esse abuso de informação.

O mesmo não aconteceu quando o senador democrata do Illinois Dick Durbin o reduziu à dimensão de utilizador da rede. Durbin limitou-se inicialmente a duas questões quase prosaicas: “Senhor Zuckerberg, sentir-se-ia confortável em partilhar connosco o nome do hotel em que ficou na última noite? (…) Se enviou mensagens esta semana, importa-se de nos dizer os nomes das pessoas a quem enviou essas mensagens?”.

De ambas as vezes foi um Zuckerberg titubeante que confessou que “não (…) preferia não o fazer”.


Os trabalhos duraram cinco horas, tempo suficiente para evidenciar a fragilidade da rede quanto à potencial exposição dos dados pessoais – ainda que, como referiu Zuckerberg a um senador, seja “o senador a controlar” que dados – dos utilizadores. Cruzava-se aqui a questão dos eventos eleitorais por todo o globo, os passados e os que estão agendados para os próximos meses e anos. Zuckerberg fez o mea culpa e comprometeu-se a afinar as ferramentas da rede para evitar a entrada em jogo de factores que possam distorcer o funcionamento dos sistemas democráticos.

As balizas para prevenir este tipo de distorções deverão ser encontradas dentro dos mecanismos legislativos nacionais e internacionais e foi essa uma das questões colocadas ao dono do Facebook: se estaria disposto a apoiar novas leis que expurguem este modelo de negócio das suas debilidades (é muito ténue a membrana que separa o termo debilidade da possibilidade de uma característica intencional) e que privilegiem a proteção dos indivíduos que navegam na rede.Mark Zuckerberg assumiu a responsabilidade perante os senadores e admitiu a preparação de medidas para evitar o uso nefasto das ferramentas da rede social.

Descrentes na capacidade do Facebook para se regular a si próprio neste campo, os senadores não conseguiram, no entanto, vincular Mark Zuckerberg à promessa de que apoiaria novos pacotes de leis que viessem a ser encontrados na matéria.

John Kennedy, republicano, foi um dos senadores que deixou o aviso a Zuckerberg: “Eu não quero ter de votar para regular o Facebook, mas juro por Deus que o farei. E isso depende de si”.

O presidente da rede social manter-se-ia esquivo sempre que lhe era pedido o apoio a nova legislação direcionada para um modelo mais apertado de regulação, até mesmo quando o senador democrata Ed Markey colocou sobre a mesa uma proposta de lei que prevê a necessidade de autorização dos utilizadores para que as empresas na rede possam partilhar informação pessoal.

Tratava-se, no fundo, do prato principal do cardápio da audição de Zuckerberg, mas o criador do Facebook voltaria aqui a tirar da manga uma estratégia que foi usando ao longo das cinco horas de audição, adiando uma resposta que não o nim: “Em princípio, penso que isso faz todo o sentido e estou ansioso que a nossa equipa possa trabalhar com vocês nessa matéria”.

A senadora democrata Kamala Harris (da Califórnia, Estado-mãe do Facebook) colocou também ela uma série de questões relacionadas com esta matéria, perguntando a Zuckerberg se a sua empresa já considerara notificar os utilizadores da rede social sobre a violação de dados.

“O falhanço de Mark Zuckerberg em responder a várias questões críticas durante audiência perante o Senado deixa-me preocupada acerca do quanto o Facebook valoriza a confiança e a transparência”, lamentou mais tarde Harris no Twitter.



Resta agora saber se estas audições de Mark Zuckerberg no Capitólio poderão aliviar o peso que se abateu sobre o Facebook desde há um mês, quando veio a público a usurpação de dados pela Cambridge Analytica, em que terão sido afetados mais de 87 milhões de utilizadores desta rede social.Zuckerberg foi ainda confrontado com o problema das fake news e a compra de anúncios políticos por uma agência russa durante a eleição presidencial de 2016.

Zuckerberg assumiu a responsabilidade perante os senadores, admitindo estarem previstas medidas para evitar que as ferramentas da rede fossem mal utilizadas, mas retirou-se de campo sempre que foi confrontado com a possibilidade de apoiar o trabalho dos legisladores – que destroem a ideia de auto-regulação – em novas leis, nomeadamente o pacote Honest Ads Act.

Questionado pelo senador democrata Tom Udall sobre se “vai chegar-se à frente e ser um indiscutível defensor desta lei”, tudo o que Zuckerberg conseguiu foi: “Senador, a melhor coisa que eu acho que podemos fazer é implementá-la”.

Udall insistiu numa resposta de sim ou não e o líder do Facebook voltou a hesitar: “Vou pedir à minha equipa para que se concentre nisso”.

Tópicos:

Audiência, Cambridge Analytica, Capitólio, Facebook, Senado, Mark Zuckerberg,

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