Ensaísta Eduardo Lourenço diz que Miguel Torga permanece uma referência para o país

| Cultura

O ensaísta Eduardo Lourenço associou-se hoje, em Sabrosa, a uma homenagem a Miguel Torga, escritor que considerou ser uma referência para o país e o homem que o ajudou a editar o primeiro livro.

O filósofo foi um dos participantes da primeira edição do festival literário Encontradouro, que decorre entre hoje e sábado, na terra natal de Miguel Torga, São Martinho de Anta, concelho de Sabrosa.

Eduardo Lourenço, sentado a uma mesa com o também autor José Carlos Vasconcelos, recordou o escritor que conheceu na década de 1940, em Coimbra, e afirmou ser uma "honra estar na casa de Torga".

"Devo-lhe muito, a começar, porque, sem ele, o meu primeiro livrinho não tinha sido publicado. Foi ele que achou que o livro merecia que tivesse uma edição e foi ele que se encarregou disso. Até hoje não sei quem é que o pagou. Provavelmente até foi ele", afirmou depois aos jornalistas.

E este foi, segundo salientou, o "princípio de tudo o resto" que fez depois. "Ele está na origem disso", sublinhou.

Eduardo Lourenço frisou que Miguel Torga, que morreu há 20 anos, é uma referência para si, mas também para Portugal e "continua a ser curiosamente um poeta vivo", no país e lá fora.

Até numa viagem a Taiwan - contou - lhe falaram das obras do escritor duriense, principalmente dos "Contos da Montanha", um livro que diz ser muito conhecido no oriente.

"Foi sobretudo uma grande referência. Uma espécie de resistência passiva e ativa ao que foi o clima cultural, cívico e ideológico do país, durante meio século", frisou, aludindo, em particular, aos 48 anos de ditadura.

José Carlos Vasconcelos considerou Torga como uma figura "rara e única" e foi à memória buscar muitas histórias do médico poeta que conheceu quando lhe foi pedir para subscrever um abaixo-assinado de escritores.

"Depois de ler disse-me `parece impossível um abaixo-assinado de escritores estar tão mal escrito`", recordou.

José Carlos Vasconcelos afirmou que Miguel Torga "marcou uma geração" de autores e que queria editar os próprios livros para que fossem mais baratos.

Lembrou ainda a vez em que o escritor negou um autógrafo a Mário Soares, mas confessou ter conhecido depois um homem "menos agreste" e que "conseguia agradar às pessoas".

"Já não dava consultas e continuava a ir para o consultório para escrever e, para escrever, punha a branca", referiu ainda.

Miguel Torga vai estar presente ao longo dos três dias de festival literário, que tem como palco principal o Espaço que lhe serve de homenagem na terra natal.

O Espaço Miguel Torga foi desenhado pelo arquiteto Souto de Moura e entrou recentemente em funcionamento.

O Encontradouro é promovido pela Câmara de Sabrosa, que tem por objetivo fazer desta iniciativa "um marco" na região.

"É um projeto que visa estimular novos talentos. Envolve outras vertentes artísticas e quer criar esta proximidade dos escritores com o território. Criar uma referência cultural que promova este território, numa perspetiva de turismo cultural", afirmou o presidente do município, José Marques.

Além da literatura e da presença de vários escritores nacionais e estrangeiros, o Encontradouro abrange outras artes como o cinema, a música e a pintura.

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