Cameron enfrenta críticas internas ao acordo com Bruxelas

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Vários deputados britânicos e membros do Governo continuam a não ver com bons olhos o esboço de acordo que está a ser negociado com a União Europeia, e que já mereceu elogios de David Cameron
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O primeiro-ministro britânico defendeu esta quarta-feira o novo acordo com Bruxelas, que cede em grande parte às exigências impostas por Londres. Perante os deputados no Parlamento inglês, encontrou resistência e muitas dúvidas dentro do próprio partido e do executivo que lidera.

Boris Johnson, mayor de Londres e uma das principais vozes do Partido Conservador britânico, questionou esta quarta-feira as bases do novo acordo apresentado por Donald Tusk. A seu lado teve outros deputados do partido do primeiro-ministro, que olham as cedências de Bruxelas com desconfiança.

Cameron argumentou que o acordo sugerido na terça-feira "não é perfeito", mas é suficiente e que a União Europeia não será "perfeita após este acordo", mas que a posição britânica "será mais forte e melhor". O primeiro-ministro inglês insistiu que o Reino Unido estaria em posição de recuperar poderes e soberanias perdidos.


Reportagem de Ana Romeu e José Rui Rodrigues - RTP

Mas Johnson sublinha que este novo documento, a ser aprovado, será apenas “o melhor de um mau trabalho”, até porque seria mais vantajoso a Grã-Bretanha ser capaz de bloquear legislação da União Europeia sem necessitar do apoio de outros estados-membros.

Na carta de Tusk
, propõe-se a criação de um novo poder concedido aos parlamentos nacionais no sentido de conseguirem impedir o avanço projetos de legislação. Para isso, é necessário que pelo menos 55 por cento dos Estados-membros aprovem essa decisão a nível interno.
Conservadores e ultra-conservadores contra Cameron
Num discurso onde enfatizou que os detalhes de um novo acordo teriam de ser esclarecidos durante “negociações intensas”, o primeiro-ministro britânico referiu que o rascunho de acordo é benéfico e é o melhor alguma vez alcançado no que diz respeito às restrições da livre circulação de pessoas, um ponto fulcral nas exigências de Londres.
 
Mas Cameron enfrenta a ira dos eurocéticos dentro do seu próprio partido e da direita britânica após ter defendido o acordo com Bruxelas nos parâmetros sugeridos por Donald Tusk, numa carta endereçada aos líderes europeus na passada terça-feira.

O presidente do Conselho Europeu propôs um projeto de entendimento entre Londres e Bruxelas que cede em larga medida às exigências britânicas. Na altura, David Cameron dizia que este é "um acordo pelo qual vale a pena lutar".

Além de Johnson, Jacob Rees-Mogg, outro deputado do Partido Conservador, apelou ao primeiro-ministro e líder do partido que “salvasse a sua reputação enquanto negociador”.

À esquerda, Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista, defendeu a permanência do Reino Unido na União Europeia mas criticou a forma como as negociações com Bruxelas têm sido conduzidas. Já os ministros da Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte fizeram questão de escrever a David Cameron, pedindo que não realizasse o referendo.

Do lado do UKIP, a oposição que já era esperada. Nigel Farage, líder do Partido Independentista, refere-se ao esboço de acordo como “patético” e refere que não estabelece “mudanças nos tratadJean Claude-Juncker diz que este esboço de acordo com Londres “responde às preocupações do primeiro-ministro ao mesmo tempo que respeita dos tratados europeus”. os, não restabelece poderes e não restitui o controlo das fronteiras”.

Também esta quarta-feira, mas em Bruxelas, o presidente da Comissão Europeia elogiou o acordo, referindo que constitui “um exemplo para outros estados-membros que podem procurar a integração europeia da forma que consideram mais adequada”. Jean Claude-Juncker diz que esta base para um acordo “responde às preocupações do primeiro-ministro ao mesmo tempo que respeita dos tratados europeus”.

“Votem com o coração”
Em geral, nas novas bases que são propostas, o Reino Unido fica dispensado de participar em projetos de maior integração europeia e monetária, tem mais poder de contestação nos centros de decisão europeus e atribui um “travão” na atribuição de benefícios e apoios sociais a migrantes nos primeiros quatro anos de estadia no país.

A discussão e negociação das condições britânicas para a permanência no bloco europeu terão lugar na primeira conferência de líderes em 2016, marcada para os dias 18 de 19 de fevereiro. A aprovação das novas condições exigidas pelo Reino Unido pelos restantes estados-membros é o primeiro passo rumo a um referendo britânico à permanência na União Europeia, que poderá acontecer até junho.

David Cameron parece disposto a fazer campanha pelo “sim” à manutenção do país na comunidade europeia, mas conferiu liberdade de voto aos deputados do seu partido, a quem pediu que votem “com o coração”, mas que não parecem estar tão satisfeitos quanto o primeiro-ministro.

O pedido de David Cameron urge os deputados conservadores a fazerem as suas opções consoante o que é "melhor" para o país e não para as suas carreiras políticas. Isto porque o sentido de voto de algumas das principais figuras do Partido Conservador terá já em conta as eleições legislativas de 2020 e o possível afastamento de apoios dentro de um partido de raíz eurocética.

A liberdade de voto estende-se a todos os ministros do Governo britânico, que prometem revelar o sentido do seu voto no referendo após a Cimeira Europeia e a aprovação do acordo pelos restantes países da UE. Mas conforme avança a BBC, há mesmo elementos do executivo, incluindo o líder da Câmara baixa do parlamento britânico, que pretendem iniciar a campanha a favor do Brexit ainda antes do anúncio da data do referendo.

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Acordo, Brexit, Cimeira Europeia, Reino Unido, União Europeia, David Cameron,

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