Ponte, a escola de Santo Tirso que aposta em "Cidadania" e "Responsabilidade"

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A rotina na Escola da Ponte, Santo Tirso, não começa com o toque de entrada. Bruna, Inês e Vasco, três dos 210 alunos que frequentam um modelo de ensino "diferente", escolhem que matéria estudar, fazem pesquisas e autopropõem-se para avaliação.

"Iniciação", "consolidação" e "aprofundamento" são os nomes dos núcleos que compõem o sistema organizativo da Escola da Ponte. Correspondem aos graus de ensino tradicional mas isso não significa que nas salas estejam crianças e jovens divididos por idades com um professor junto ao quadro a ler o manual ou a debitar matéria.

A Escola da Ponte é pública, assinou em 2003 um Contrato de Autonomia com o Ministério da Educação, recebe alunos desde o pré-escolar ao 9.º ano de escolaridade e existe há mais de 40 anos seguindo um método único em Portugal.

Vasco Pinheiro (11 anos) contou à agência Lusa que no seu grupo de trabalho está um colega do mesmo ano e dois mais novos. "Esta dinâmica serve de entreajuda", aponta.

"Não aprendemos só ciências ou matemática. Aprendemos a ser pessoas e a conviver com os outros", diz Vasco, introduzindo valores e palavras que são comuns ouvir na Ponte: "Cidadania" e "Responsabilidade".

Bruna Miranda (14 anos) quando chega à escola pela manhã planifica o dia, faz pesquisas, exercícios e prepara-se para as avaliações que são solicitadas por si quando "se sente preparada". Em 15 dias tem de se comprometer a cumprir no mínimo uma tarefa em cada valência. Chama-se "Avaliação à Quinzena".

Questionada sobre que diferenças encontra entre este sistema de ensino e o tradicional, Bruna fala da "capacidade de se autoavaliar" ou "do direito a dar opinião".

Inês Silva (11 anos) repete estas ideias, contando que quando a família se mudou da Mealhada para Matosinhos não hesitou em escolher S. Tomé de Negrelos, freguesia de Santo Tirso onde se localiza a Escola da Ponte desde 2013, altura em que saiu das instalações originárias em Vila das Aves.

Aqui há muita autonomia. Os meus pais tinham interesse de que, quando crescesse, já estivesse habituada. Quando sairmos da escola, ninguém vai estar lá a explicar como devemos fazer isto e aquilo", diz.

Há três anos, na última avaliação externa, levada a cabo pela Inspeção-Geral da Educação, a escola foi avaliada com `Muito Bom` em todos os parâmetros. Por ser uma escola com poucos alunos basta, explicam os responsáveis, que haja um resultado menos positivo para que o ranking possa apresentar uma variação de ano para ano, "mas tem estado quase sempre acima da média nacional", afirmam.

Na Escola da Ponte, onde os cacifos não têm cadeado simplesmente porque não é preciso fechar à chave o que é de cada um, os alunos podem ir à casa de banho sem pedir licença, como descreve, entre outros pormenores, Ludovina Silva, presidente da Associação de Pais, mas "não há abusos".

"Têm liberdade mas isso não lhes tira a responsabilidade. Muito pelo contrário. Isso também é crescer. É fazer com que percebam que têm responsabilidades perante o que estão a fazer na escola, que é estudar", disse.

Ludovina Silva tem o filho mais novo, o Miguel, na Ponte. A mais velha, Isabel, já terminou o percurso escolar ali e pela primeira vez estuda numa escola tradicional.

Nota diferenças: "O tempo nos testes foi uma coisa que a Isabel teve de trabalhar na escola nova. De resto, ela é muito reivindicativa, saiu daqui com uma assertividade muito grande", conta uma mãe e representante dos pais, que frequentemente é confrontada com dúvidas sobre este método.

"Como conseguem ter miúdos de faixas etárias diferentes e de anos diferentes no mesmo grupo?" - é uma das perguntas que já fizeram a Ludovina Silva, enquanto Cristiana Almeida, orientadora educativa da valência de matemática, já se deparou com questões sobre a inexistência de testes ou a preparação para os exames nacionais.

"Quando as pessoas não conhecem bem o modelo, apontam logo: não há testes, não há avaliação e não corresponde uma coisa à outra. Valorizamos a autonomia e a responsabilidade dos alunos. Tentamos que se corresponsabilizem pela sua aprendizagem", descreve a professora.

Quando se aproxima a data dos exames nacionais, os alunos são preparados em relação ao formato e ao tempo que dispõem. Quanto às provas de aferição, a escola optou por não as realizar, mas o tema foi discutido por todos, sobretudo pelos alunos que reúnem uma vez por semana em assembleia para falar da escola, apontar os resultados das várias "responsabilidades" e fazer "partilhas".

Na Ponte, a sexta-feira à tarde começa com braços no ar que significam "pedido de palavra". No dia 27 de maio a convocatória apontava que seria tratado o Dia da Criança e temas relacionados com os grupos que tratam do jardim ou que dinamizaram os torneios de damas e xadrez, mas falou-se ainda de guerra e trabalho infantil, com as frases a começarem com muita frequência por "acho que...".

A Ponte tem uma média de mil visitas por ano e os seus representantes participam em encontros onde explicam o projeto educativo, nem tanto para responder à pergunta frequente sobre se "este método resulta?", mas para apontar que "existem alternativas ao método tradicional, nem melhores, nem piores", dizem, "só diferentes".

 

 

 

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