Cláudia Cardoso

A falta de jeito

Quando cheira a dinheiro exaltam-se. Tem sido exatamente isso o que aconteceu com as designadas agendas mobilizadoras. O Plano de Revitalização e Recuperação (PRR), ou a chamada bazuca, veio agitar as águas do governo. E descobriu-se que a falta de comunicação não é pontual, mas sistémica. A sociedade civil, pequenas e médias empresas, partidos políticos e instituições vieram insurgir-se contra a postura do governo e reclamar não terem sido ouvidos nem achados em todo o processo. Nestes se incluem as Câmaras do Comércio de Angra do Heroísmo e Horta, e o presidente do Conselho Económico e Social. 117 milhões de euros de fundos europeus a entrarem na Região e o processo a ser gerido com demasiada sombra. Faltou explicar aos açorianos com clareza do que se trata. E faltou implicar todos e fazer do processo algo de verdadeiramente transparente. Tal não aconteceu. O PS despoletou um debate de urgência sobre o tema e, neste particular, ficou o Secretário das Finanças sozinho a dar o peito às balas. Num debate marcado por um protesto público anterior e em que as explicações, por mais sérias que sejam, soam ao seu exato inverso. Na política o que parece é. A juventude de tempo de governação não tem sido parcimoniosa com o descrédito em que o governo parece empenhado em cair. Ausente da Assembleia Regional esteve o Presidente do Governo. Não deu explicações. Nem lá dentro, nem cá fora. E limitou-se em propagandear a transparência, com que se comprometeu sempre, mas que não cumpre. Pior. Na quarta-feira, à noite, depois de aprovada a constituição de uma comissão de inquérito ao PRR, veio dizer que, em abono da transparência, se fará um reset nas empresas escolhidas e tudo voltará à estaca zero. Se ainda houver margem europeia para tanto, acrescento. E disse-o nos passos perdidos e apenas aos jornalistas, num desprezo pelos representantes do povo que se sentam lá dentro. E que o souberam depois. É sabido que a emenda é sempre pior do que o soneto. E que o nasce torto tarde ou nunca se endireita, mas esta novela põe o próprio adagiário à prova. Em teoria o governo respeita o parlamento e proclama a transparência. Na prática é o que se vê. Que mais faltará acontecer?