Cláudia Cardoso

A gruta de todas as atenções

Por estes dias a atenção das notícias centra-se no grupo de jovens que ficaram presos com o seu treinador numa gruta da Tailândia. No sábado a equipa de futebol dos Moo Pa treinou. Depois, jogadores e treinador foram dar um passeio nas grutas de Tham Luang mas, quando começou a chover, as grutas foram ficando inundadas. O caminho que tinham seguido ficou bloqueado. A compaixão mundial virou-se, então, para uma montanha tailandesa. A festa fez-se quando a notícia de que as 12 crianças e o treinador que estavam desaparecidos há mais de uma semana foram encontradas sãs e vivas. Mas, a alegria refreou quando se percebeu que havia ainda muito a fazer. Foram encontrados, mas não foram resgatados. E esta parece ser a parte mais difícil. Há, ao que parece, muitas formas de o fazer. De entre as hipóteses colocadas pelas autoridades tailandesas estão o mergulho, para o qual as crianças não possuem preparação, ou esperar cerca de quatro meses até que a época das chuvas passe. O mundo tenta perceber a prova a que estão sujeitos estes miúdos, a partir de uma gruta, desafiados a atravessar por covas inundadas a que só mergulhadores experimentados se atreveriam. Pessoas aprisionadas em grutas é um tema recorrente da literatura e da cinematografia universais. O mundo, de olhos postos nos jovens tailandeses deseja a sua rápida salvação. Mas há na compaixão mediática por este caso uma dedicação que falta em casos congéneres. Quando comparada com a indiferença por outras tantas crianças passíveis de serem salvas, e que se deixam morrer junto à praia da indiferença europeia. Simples como permitir acostar um bote numa praia mediterrânica. E evitar que aquelas imagens de adultos a carregarem os corpos de três bebés mortos insistam em tirar-nos o sono à noite. Em pleno século XXI poderemos mesmo estar certos do nosso estádio civilizacional? São nossos filhos, afinal. Duma europa inclusiva nos discursos, mas sectária nas ações. E cada vez menos unida.

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