Cláudia Cardoso

A impossível redenção

     


     Pensou-se algures, em meados de 2021, que este ano seria são e escorreito. Já percebemos que não será. Quatro meses volvidos e vimos estalar uma guerra na Europa e a iminência duma catástrofe natural nos Açores. O coração dos açorianos, habituado à sismicidade latente, fez-se mais ansioso e atento. O boletim diário dos infetados com Covid-19 foi substituído pelo número diário de tremores de terra. E pela perplexidade dos seus números. Entre os sentidos pela população e os não sentidos rapidamente se percebeu que, em poucas semanas, os números se cifravam muito acima da totalidade dos sismos registados no arquipélago no ano anterior. E, apesar da dureza que é viver em cima dum soluço da terra permanente, fez o coração dos açorianos temer. O êxodo da ilha de S. Jorge fez recordar a razia dos anos sessenta para a América. E, por dias, temeu-se o pior. Em suspenso o sono não é tão descansado e a ansiedade passou a fazer parte do cotidiano. De quem partiu e de quem ficou. Fizeram-se, como sempre, os apressados juízos de valor sobre os que saíram. O mundo está convulso e perturbado. O ser humano rasgou o arco-íris do “vai ficar tudo bem”. A história deveria ter servido para nos ensinar que, dificilmente, tal aconteceria. As imagens diárias da destruição massiva e criminosa da Ucrânia explicam-nos que o mundo nunca mais será como antes. E alertam uma vez mais a humanidade para a sua infinita desumanidade. Valas comuns, genocídios, crimes contra a dignidade humana. Troca de acusações, diplomacia inábil e inútil. O mundo parado, em suspenso, enquanto milhares de civis sucumbem às mãos da Rússia. E o mundo assiste impávido ao genocídio, banalizando o crime. Por isso, as celebrações pascais que se aproximam dificilmente podem ser redentoras. Quando o mundo se debate com tamanho desalinhavo. A comissão criada em Portugal para a verificação dos crimes sexuais na igreja é mais um sinal do tamanho do abcesso que corrói a humanidade. E Pedro Strecht aponta o encobrimento de bispos no ativo, e alerta que com 300 denúncias estamos a ver, apenas, a ponta do iceberg. Impossível redenção. 


claudia.cardoso9@gmail.com