Cláudia Cardoso

À vista desarmada

Os dias lânguidos de verão e as tardes prolongadas na praia tornam o despudor uma coisa natural. Gosto disso como dizem os muito facebookianos. De ver pessoas mais luminosas, hidratadas, com vitamina D a rodos, e um sorriso na face. O tempo pede. A praia e a pedra das ilhas enchem-se de gente que quer estar muito próxima do mar. Falta o espaço entre toalhas. E com esta densificação falta espaço para a privacidade. Mesmo que se esteja num local público. Ouvem-se, inadvertidamente, as conversas alheias. E vêem-se as ações privadas que se decidem exercitar em público. O desnudamento do corpo pelo verão expõe aquilo que a longa duração do inverno havia feito por esconder. Acontece que o corpo semi-nu apresenta-se aos olhos do próprio como uma verdadeira surpresa. E suscita uma vontade irreprimível de o observar. Observando-o surge a vontade de resolver aqueles que são problemas caseiros, e íntimos, em público. Claro que isto pode sempre ser visto como um gesto descomplexado, de quem não tem segredos a esconder. Ou como um gesto utilitário, de quem precisa sempre de poupar tempo. E porque o tempo urge e a exposição solar permite surgem as borbulhas repentinas que o inverno escondera, os pontos negros que o frio encapotara, e os pelos encravados e as crostas desconhecidas, aos olhos de todos. E assim se inicia uma longa cruzada pela pele perfeita. Num despudor ingénuo. De quem desconhece a importância da intimidade. Que também se aplica aos comportamentos. E num crescendo de zelo epidérmico trata-se, já agora, da pele do parceiro, que geme sob o sol tórrido de agosto, no expurgo dos pontos negros. Lembrando-me sempre os chimpazés da “National Geographic”. A mim parece-se que os problemas da pele de alguém são da esfera privada. E nela deviam permanecer. Pela sanidade coletiva de não termos que assistir a limpezas de pele estivais, num salão de estética a céu aberto. Muito mais perto de si do que gostaria de imaginar.

Claudia.cardoso9@gmail.com