Cláudia Cardoso

Amar o lugar

Quando era miúda e a televisão ainda era um bem escasso, a preto e branco e com limitadas horas de emissão, a sala de estar transferia-se, inevitavelmente, para outros lugares. A maioria deles mais arejados, no sentido literal e não só. Um deles era o Jardim de Angra que era, por esta altura, o lugar em que se encontravam muitas famílias. A comunicação efetivava-se, num tempo em que valorizávamos o nosso interlocutor, em detrimento do suporte. Nesse local de encontro trocavam-se receitas e fazia-se política. Com a mesma dose de desassombro e naturalidade. Neste lugar, à volta de um pequeno coreto concentravam-se grandes histórias, daquelas que só a memória dos homens conservava, já que se desconhecia, pela altura, a eficácia do Google. Este exercício de memória tinha a capacidade de presentificar o passado e os ancestrais, valorizava a humanidade existente antes de nós, e evitava o alzheimer. Sou utilizadora assídua da tecnologia, mas saudosa do afeto que a interferência desta esbate. Às vezes comovo-me com um comentário numa publicação, mas nunca tanto como com um abraço dum amigo a quem não via há muito tempo. E recordo o cheiro das folhas e o aroma das flores que adornavam as conversas, no tablet o meu olfato uniformizou-se. Sinto a falta de tocar as mãos de outros num jogo de escondidas que as análises ao meu perfil do facebook não recriam. Imagino como é diferente a vida dos millennials que, tendo nascido na geração tecnológica apenas, comunicam por abreviaturas e amam por messenger. Nos chats da vida havia mais impressões à flor da pele, maior condescendência e humanidade quando, ao olhar para dentro dos olhos do outro, ao mergulhar na sua imensa profundidade, se intuía sentir estados de alma alheios. Mas conhecidos, porque a humanidade agrega. Os emojis são fofinhos, mas bastante limitados e apáticos. Cristalizam um sentimento, mas concentram muito pouca emoção.

claudia.cardoso9@gmail.com