Cláudia Cardoso

As prateleiras de cima

Do que eu gosto mesmo no verão é da languidez dos dias. A possibilidade que nos abre de podermos fazer as coisas que, verdadeiramente, queremos, mas mais devagar. Com tempo. De resgatar do pó das estantes os livros mais apetecidos, e dar-lhes espaço na nossa vida. Começar pela lista de espera dos mais antigos, aos quais a rotina retirou qualquer possibilidade. Nada na vida nos pode preencher como a leitura de um bom livro. Não me lembro de cobiçar outra coisa aos amigos, que não os livros. A doce inveja das estantes alheias. De todas havia uma que tinha estantes longas e altas, bem organizadas, com lombadas lustrosas que, imaginava eu, deviam ser melhores por dentro do que as edições de bolso que eu colecionava. Trocávamos livros, dos de capa mole. Os de capa dura estavam, pelo pai, vedados ao empréstimo. As estantes eram tão altas que era necessário recorrer ao auxílio de uma escada para lá chegar. E, chegando, percorrer primeiro com os dedos as lombadas, pousar na palma da mão a capa ainda fechada, antecipando o doce sobressalto da leitura. Descer a escada com o livro na mão e agarrá-lo bem junto ao peito. Depois segurar o livro com absoluto encanto, dar-lhe tempo para que se recompusesse deste encontro, e espaço. Não o ler de um trago. Guardar para o fim, como a comida preferida na orla do prato. Esperar. Dar tempo a que esta cumplicidade se concretizasse. Voltei para casa encantada com o empréstimo. Incrédula perante tamanho privilégio. Os meus pensamentos revoltos, ansiosos por abrir a primeira página. Incapaz de desacelerar a respiração ao perceber que, por ora, aquele livro, mesmo que emprestado, era somente meu. E certa de que, ao abri-lo, desde as primeiras frases, ele me transformaria. Numa pessoa diferente da que o havia aberto dias antes. E que, quando o fechasse e a sua leitura ainda me envolvesse o pensamento, já não precisaria de uma escada tão alta para chegar às prateleiras de cima.