Cláudia Cardoso

Atravessar as trevas

Há uma certa tristeza que baila nas ruas das nossas cidades, por esta altura. Os turistas sem máscara que nos visitam passeiam entre as ruas, sem saber que isto já foi chão de outras uvas. O verão morno que arrasta o nevoeiro que cobre o corpo das cidades tem tempo dentro dele. E faz-me, subitamente, recordar o verso do poeta Rui Rodrigues “os meninos morrem dentro dos homens”. Nos verões da minha infância havia também estas chuvadas grossas que hoje caem. E que molham a terra e libertam aquele cheiro quente e húmido. Os olhares dos homens andam cabisbaixos. Como se a normalidade fosse impossível ainda. O confinamento fez-nos imaginar coisas como “vai ficar tudo bem. Porém, a pandemia não dá tréguas. Nuns lugares mais do que noutros, com uma impetuosidade distinta, deixou mossas na nossa capacidade de reação e danos emocionais. A desconfiança perante os outros instalou-se. Os afetos contiveram-se. Não nos abraçamos como antes, nem procuramos a face do outro. Como seres gregários que são, os humanos anseiam pela conexão, e impedidos pelos tempos que vivemos, contém-se. Nos gestos, na capacidade de demonstrarem afeto. Soterrados na indiferença. Ao outro e ao seu sofrimento. E se o sofrimento do outro não me diz respeito então que tipo de humano sou? As tecnologias abriram um mundo infindo de possibilidades, porém a exposição diária a tantos ecrãs, somada às máscaras impeditivas da leitura da expressão facial, e ao distanciamento social agora vigente, tornaram-nos menos empáticos. Desviada a atenção da face, do toque, e do encontro presencial, cultivamos as amizades, os amores e o convívio em suportes virtuais. E os mais jovens quase exclusivamente aí. Quando se regressa à presença, já perdemos a capacidade de ler nas entrelinhas, de interpretar um esgar, de conhecer o toque da pele quente da mão de um amigo de longa data. O que sobra de humanidade nos corpos dos humanos de hoje? E aprofunda-se o fosso da indiferença ao outro. E às suas necessidades. Que são, afinal, as nossas também. E tendemos a não fazer pausa no curso da vida. Mas demasiado fast forward. É tempo de nos repensarmos.

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