Cláudia Cardoso

Circo de feras

George Orwell havia alertado para os perigos d “big brother is watching you”. O voyeurismo social é a doença do século. Que faz salivar os cães de Pavlov perante a imersão possível na via alheia. Por mais danificada que seja a própria. As dores dos outros, escancaradas num ecrã, compensam desertos interiores. O badalado novo programa da SIC, “Supernanny”, veio expor a falência parental que a escola vem denunciando há algum tempo. Sem sucesso. Nem todos podem ser pais. Podem ter filhos, mas nunca serão bons pais. Porque isso pressupõe educar. Esta coisa que dá imenso trabalho e alguns dissabores. Resta esperar que outros lhes ensinem como se faz para domar uma criança. Isso já acontecera com o “encantador de cães”, Cesar Millan. Só que as feras agora são outras. Esperemos que a humanidade ainda vá a tempo de as distinguir. A SIC recuperou o modelo dos coliseus romanos, e pôs em luta os gladiadores. Pais e filhos sangram na arena perante milhões de espetadores. Aumentam o share, e diminuem a esperança na salvação da humanidade. A luta acontece para gáudio da assistência, mas todos são perdedores à partida. A nu, a falência parental, não apenas dos que povoam o ecrã, mas de uma geração inteira que, refastelada, sorri perante a desgraça alheia, ignorando o óbvio. O sangue na arena leva a multidão ao rubro. Dominando o sofá manejam, intrépidos, o comando da televisão, enquanto lançam o seu juízo de valor. Quem dá a palha são os indigentes do costume. Apesar de engravatados. O sentimento de pertença à matilha faz o resto, estimula a boçalidade e deixa o sangue jorrar desta ferida. Os fins justificam os meios. Que se dizem pedagógicos. Não basta acorrentar e negar comida para configurar maus-tratos infantis. A insanidade posta em direto. E em horário nobre. A multidão aplaude, porque o estúdio é limpinho. Mesmo que a sujidade não esteja à vista continua a existir. Há pais a quem falta a educação que ainda devem aos seus filhos.

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