Cláudia Cardoso

Correr atrás do prejuízo

Comunicar é uma faculdade que não assiste a todos como se possa julgar. O novo governo, atenta a sua constituição e pilares diversificados de suporte, teria, à partida, dificuldades estimadas na sua articulação interna. Mas o que se esperava é que esta não acumulasse com as dificuldades de comunicação para o exterior. Não é o que sucede. A gestão da situação pandémica, agravada no caso da ilha de São Miguel, é disso um bom exemplo. Desde logo porque se escolheu uma tríade para comunicar. Uma coordenação técnica, faraonicamente paga pelos açorianos, para balizar as questões científicas, que sustentariam depois a decisão política. A questão é que se colocou o coordenador regional de saúde pública como comunicador primordial e este comunica mal e a destempo. Sucedem-se os episódios. A abertura das escolas nesta ilha foi um dos exemplos, a que se soma o dos ATLs. Primeiro abriram os ATL e as escolas para o 1º e 2º ciclos, depois no dia seguinte já não abriam; a vacinação dos docentes começou por não ser prioritária, rapidamente o passou ser. Os efeitos na ilha mais populosa do arquipélago estão a ser desastrosos. A ponto de, em seis meses de governação, termos a primeira manifestação na rua. O coordenador regional censurou uma reportagem do Açoriano Oriental de forma inaceitável em democracia. Querendo negar a realidade a que todos assistem e que procurou desmentir. O Presidente do Governo acorreu, no Dia da Liberdade de imprensa, para desfazer o suposto equívoco, explicando que errar é humano. O que começa a ser desumano é o aperto económico e social, com sequelas ainda difíceis de medir na sociedade micaelense. A que se pode somar a falta de critérios na aplicação do Plano de Vacinação traçado. Em São Miguel o caos instalou-se, com pessoas de idade inferior à estipulada e sem patologias associadas, a serem vacinadas. No Faial já foram vacinadas pessoas de 50 anos enquanto há pessoas na Terceira com mais de 70 anos que não o foram. As reuniões do Senhor Secretário da Saúde com instituições em S. Miguel não é um acaso. Coincide com a manifestação. O incêndio está ateado e os contornos são alarmantes. Temos, portanto, uma governação reativa. A mensagem não basta ser tecnicamente irrepreensível, necessita sobretudo chegar ao destinatário. E em tempo útil, de forma a que cidadãos, empresas, sociedade civil se preparem para a mudança. Não o sendo, quem sofre? Sempre os mesmos. Com os danos acumulados de um ano de pandemia, de escolas fechadas, de ensino à distância, de confinamento e restrições. Correr atrás do prejuízo pode ser uma estratégia, mas não é seguramente, a certa. Esta semana o governo tem sido o bombeiro dos incêndios que ateou na semana passada. A mangueira já começa a parecer curta para a força com que este está a lavrar. Fala-se de transparência e abertura. Mas vive-se de receio e colapso. Não se vislumbram motivos para rir.

Claudia.cardoso9@gmail.com