Cláudia Cardoso

Da beleza absoluta


No cinzento duma parede de betão os vidros duma janela abrem um rasgo de luz inusitado. Acontece o mesmo com as nossas vidas. É preciso saber deixar entrar a luz. E ver para lá da janela. A utilidade desta vai muito para além dela mesma. Descer a rua para ir almoçar, e receber uma sms duma amiga que acabou de chegar de Barcelona. De repente, já não desço a rua, desço la rambla em ritmo de festa, sento-me numa esplanada com desconhecidos à volta, embalada pela saborosa sensação do anonimato, e escolho umas tapas. Subo as escadas do Parque Güell para passar os dedos pelos azulejos minúsculos, visito a arquitetura curvilínea de La Pedrera do Antoni Gaudí, para perceber que o mundo se masculinizou na arquitetura. Há no mundo uma ironia fina sempre pronta a romper-nos a alma. Que tanto nos pode dececionar como encher de coragem. De repente, tenho um vestido de alças no corpo e há um cheiro a maresia no ar. Há dias, enquanto esperava por um expresso quente na mesa de um dos cafés da cidade, vi uma jovem que folheava um livro. Enquanto atendia a espaços ao telemóvel. Desatenta de tudo o resto. Os olhos apressados a correrem as linhas, uma entrega inusitada ao objeto. Acudiu-me uma súbita curiosidade de perceber de que livro se tratava. Esperei que virasse a capa, porque a lombada era estreita e estava ligeiramente carcomida pelo tempo. Mas a mão da jovem não desarmava a guarda. O sol brilhava lá fora. E ela lia Ulisses de James Joyce. Recuperava pela janela aberta um outro tempo. E, sem saber sequer, resgatava a esperança. A minha pelo menos. De que o mundo não é feito só de imbecis e de medo. É feito da deliciosa certeza de

saber que há sempre alguém que não se deixa ir na corrente. E que diz, como no “Cântico Negro” de José Régio, que “Não sei por onde vou,/ Não sei para onde vou./ -Sei que não vou por aí!”. Reconfirmando a possibilidade de reconciliação entre a beleza e a rotina.

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