Cláudia Cardoso

Da bicheza

A campanha eleitoral anda morna, mas um dos debates mais intensos aconteceu precisamente entre Rio e André Silva do PAN. Talvez porque a margem de desconhecimento o permitiu. As preocupações que o PAN trouxe à colação no debate não me sensibilizam sobremaneira. Algumas considero mesmo extremistas. E esta causa dos animais levada ao extremo é sempre uma coisa bastante assustadora, num mundo em que a empatia entre humanos, e o valor da solidariedade está pelas ruas da amargura. Mas não me interpretem mal. Nada tenho contra os animais, bem pelo contrário, mas não subscrevo o seu endeusamento. Para mais em detrimento da desumanização vigente. E não compreendo que se lhe devotem preocupações que se recusam aos humanos. A recente ideia do PAN de criar um serviço nacional de saúde para os animais roça o hilariante. Sobretudo quando o serviço nacional de saúde se tem vindo, visivelmente, a deteriorar. Este endeusamento leva ao extremo de haver quem cuide tão extremosamente das necessidades dos seus animais, enquanto tem os pais institucionalizados e os filhos horas extra nos ATL. As ativistas da organização “Almas Veganas”, que dirigem um santuário animal em Girona, difundiram um vídeo em que explicam que separaram os galos das galinhas para que estas não fossem violadas. O facto das galinhas sofrerem ao serem galadas é, para elas, um facto e não um sketch humorístico. O vídeo até se tornou viral em Espanha. E fez-me lembrar o comentário duma mãe, numa plataforma online, em que questionava se haveria outra forma de “afastar” os piolhos que infestavam a cabeça do filho, porque não queria matar os “coitados dos bicharocos”. Se isto não é o grau zero da idiotice expliquem-me o que é então. Porque não pensei viver para assistir a tanto. Os animais humanizados, e colocados em paralelo com as pessoas, é uma ideia peregrina, em primeira instância para os próprios animais. O que nos deveria diferenciar deles, a racionalidade, não tem sido suficiente para o fazer. Não deixa de ser verdade que há animais mais companheiros do que certos humanos, mas isso será razão para fazermos deles aquilo que não são? E que contraria a sua própria natureza? Num mundo-cão como o nosso ser humano já não se usa.