Cláudia Cardoso

Da indignidade

Como prevejo que, com o nascer da alvorada, se esfumarão as boas intenções que sempre rodeiam a comemoração do dia internacional da mulher, volto à carga, um dia depois. Dedicado aos céticos que se questionam para que serve, anualmente, esta comemoração. A listagem da AMCV não deixa margem para dúvidas. Refere que, em pleno século XXI, persistem, infelizmente, sobejas razões para se continuar a pugnar pela igualdade de direitos. Em média, num único dia, na Guatemala duas mulheres vão ser mortas pelos seus parceiros. Na África do Sul uma mulher será assassinada a cada seis horas por um homem com quem mantém uma relação de intimidade. Na Índia, 22 mulheres serão violadas ou mortas, em nome da honra da família. Nos Estados Unidos, 3 mulheres serão mortas pelos seus maridos ou namorados, e 9 mulheres serão vítimas de assédio sexual. 83 milhões de mulheres na União Europeia viveram situações de assédio sexual a partir dos 15 anos. De todos os crimes sexuais cometidos num único dia, apenas 0,6% terão como desfecho a prisão do criminoso. Nas próximas 24 horas, mais de 6.000 pessoas serão raptadas e vendidas como escravas sexuais, sendo que 71% dessas vítimas serão raparigas ou mulheres. No mundo inteiro apenas 40% de todas as mulheres que irão sofrer assédio sexual vão procurar ajuda. Num único dia, mais de 600 milhões de mulheres vão continuar a viver em países onde a violência contra as mulheres não é considerada um crime. 1 em cada 3 mulheres de todo o mundo é vítima de agressões físicas, psicológicas e sexuais, pelo simples facto de ser mulher. Todos os anos, 15 milhões de meninas e adolescentes são obrigadas a casar. Diariamente, 8 mil raparigas estão em risco de sofrer mutilação genital. Em pleno século XXI a pergunta deveria ser retórica. Mas, está muito longe de sê-lo. Perante esta resposta valerá a pena querer manter a pergunta?

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