Cláudia Cardoso

Do resto

O que eu gostava era de descobrir os sentidos por detrás dos versos, sabendo que a maioria deles não estava ainda ao meu alcance para decifrar. Com dez anos folhear grandes poetas pode mesmo ser um exercício desanimador. Rebuscava com voracidade os grandes poetas nas estantes da biblioteca do meu pai. E desanimava quando o verso se tornava, pela linguagem utilizada, ininteligível. Cesário, Camões, Pessoa. A maioria deles não os percebia. Ou não os percebia completamente. Mas o desconhecido era também uma fonte infindável de encantamento. Nas estantes, de lombadas alinhadas, estavam alguns dos grandes poetas que, mais tarde, vim a degustar como se de um bom tinto se tratasse. Estavam alguns dos que aprendi a amar, como se fosse mesmo para a vida toda. Alguns deles ainda persistem. Outros ficaram pelo caminho. Muitos o tempo apurou o entendimento. Outros a inteligibilidade fez perceber o óbvio. Na adolescência era Pessoa quem me dominava a admiração, pela fileira de heterónimos que faziam dele muitos. Hoje, os estudiosos engrossam essa fileira a cada dia que passa. Muitos outros vieram compor a lista infinita. Ruy Belo, Herberto Hélder, Nuno Júdice, Nemésio, José Régio, Sophia, Torga. Mas, aqui, mesmo ao pé da porta, por debaixo da instalada indiferença, existem grandes poetas. Emanuel Félix, Emanuel Jorge Botelho, Rui Rodrigues, Luísa Ribeiro, Mário Cabral. E tantos, tantos outros, cujo caldo de sentidos não os faz serem daqui, mas de toda a parte. Gente cuja poesia é, como diria a Natália, “para comer”. Como se de um fruto polposo, que seguramos na palma da mão, e deixamos verter quente por entre os dedos, se tratasse. A poesia não vende, nem rende. Paradoxalmente, a poesia, como a arte em geral, é o que nos eleva, o que nos faz suster a respiração. O que torna um lamento num grito. E um bocejo num gesto. A poesia é o que nos resta quando a realidade é insuficiente. A poesia não é o resto, porém. É o tudo.

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