Cláudia Cardoso

Do silêncio

Num ápice a vida mudou diante dos nossos olhos atónitos. Os dias seguiam a rotina habitual quando o mundo se suspendeu. Subitamente o propalado alarmismo da comunicação social fez-se presente. E o que era só dos outros fez-se nosso. E fomos todos obrigados a parar. A ter tempo. O mesmo que nos queixávamos de nos faltar. Fomos obrigados. A olhar para dentro e a olhar para o lado. A ver os outros. Na sua completude. Na parte que nos encaixa. Sustivemos a respiração acelerada. De que nos tínhamos esquecido. Desabituado. Destreinado de ser gente. Fomos obrigados a humanizarmo-nos. A ver que, na essência, somos parecidos. Por debaixo da raça, do credo, da orientação sexual. E se assim é porque nos dividem as fronteiras? Porque nos separa o ódio? Porque não perdoamos nem mesmo a nós próprios? Neste caminho, em que a paragem do tempo nos colocou, não há encruzilhadas. O caminho ficou subitamente claro. Estávamos a divergir. A fugir da nossa própria humanidade. Talvez, por isso, seja importante tirar esta lição do caos. Embora este revele também o pior da humanidade. O açambarcamento recente nos supermercados, o incumprimento da quarentena, a subida vertiginosa do preço do álcool e das máscaras. O pior do homem a subir à tona. A lembrar-nos que no meio do caos existe lodo, mas existe luz. Nos profissionais de saúde que salvam vidas diariamente, nos filhos que obrigam os pais à quarentena, no exército de gente a voluntariar-se pela bondade. O tempo para novamente. Sentimos saudades da normalidade de antes nos queixávamos. Hoje aprendemos a valorizar os pequenos gestos. A chave na ignição, os arrufos dos filhos no banco de trás, o sorriso do colega à entrada. Pedimos que nos devolvam a rotina porque a amávamos e nos tínhamos esquecido disso. Entretidos em querer outras e novas coisas. O tempo de hoje é sombrio e assustador. Mas sabemos que, se cumprirmos civicamente à altura da razoabilidade que os tempos pedem, sairemos ilesos desta tempestade. Mas sairemos necessariamente outros também.



Cláudia Cardoso

2020.03.19