Cláudia Cardoso

Dos voos largos

Havia nela, talvez, um resto de luxo que lhe sobrava de um sobrenome aristocrático. A certeza no gesto de que se passeara por salões em que os copos tilintam, e as senhoras mordiscam acepipes de nomes impronunciáveis. Porém, nada de resto fazia recapitular estes dias. Roupas andrajosas cobriam-na até aos pés e o cabelo desalinhado explicava o restante. Cruzava-me com ela muitas vezes. Observava-a longamente. Falava sozinha. Primeiro para dentro, como numa ladainha triste. Depois para fora, em brados, gestos repentinos que poderiam ter sido acolhidos por um palco. Gente quieta, a quem a vida acomodara, parava também para a observar. Partiam depois abanando a cabeça, numa sentença definitiva. Não procuravam nela o mesmo que eu. O que me fascinava não era a suposta loucura que os outros viam. Era a mulher por de dentro. Era o passo seguro, o olhar franco. A réstia de altivez. Uma sedução decadente. Um dia resolvi aproximar-me para a escutar. Recitava longas passagens de Rei Lear, sonetos de Camões, e percebi que sabia o nome das constelações. Vivia num mundo só seu, numa galáxia distante, em que não há outros que abanem a cabeça em breves condenações. E não se importava de ser observada. As mãos esguias, encimadas por umas unhas partidas e sujas, elevavam-se no ar para preceder o solilóquio. Um dia aconteceu no meio do trânsito, até a polícia lhe pôr cobro. No outro em frente a um restaurante frequentado. O mundo já lhe oferecia pouca disponibilidade. Recusava-se a encaixá-la nos padrões medianos do seu entendimento. O mundo havia mudado. Ela também. Um dia comecei a dar pela falta dela nos passeios. Notei a sua ausência. Faz falta ao mundo quem recite poesia. Quem a ame ao ponto de sabê-la de cor. Faz falta ao mundo o desvio. A ousadia. Pensei que adoecera. Disseram-me, mais tarde, que voou. E está noutra dimensão, na qual os que com ela se cruzam não abanam a cabeça em reprovação. Antes a observam e voam com ela.

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