Cláudia Cardoso

Haters puros

O mundo anda mesmo determinado na sua caminhada de ódio. É a era dos haters. Todos odeiam alguém, uns odeiam todos, e todos tentam, por imitação, ter os seus ódios de estimação. A Greta Thunberg é um desses alvos preferenciais. Todos a odeiam. Uns porque a acham um fantoche de interesses ocultos, outros porque fala do que não deve, outros porque fala, simplesmente. Outros porque devia estar era na escola. Outros porque sim. E outros porque assim assim. E outros não sabem bem a razão mas as redes sociais são insidiosas e dão a volta ao miolo de um ser humano. Vai daí… hate. A miúda já foi apelidada de tudo, e querem agora arranjar um poço fundo onde a colocarem. E o Trump, que nunca deu sequer por quaisquer alterações climáticas, ainda mais. Os tweets podem também ser muito viciantes. As doenças que já a acusaram de ter encheriam compêndios científicos. Porém, a emergência climática é grave. Enquanto falam da miúda correm a cortina de fumo do que verdadeiramente importa falar. Podemos sempre fazer como os negacionistas do holocausto, ou os dos horrores da inquisição. Podemos sempre fingir que o mundo é bom, e os humanos melhores ainda. Podemos sempre ignorar que a história se repete. E fingir que desconhecemos todas as atrocidades cometidas pela humanidade. Não temo muito as Gretas deste mundo, mas temo bastante o imobilismo, os velhos do Restelo, os contrariadores e os bota-baixistas. Que fazem, dos que ousam ter vistas menos curtas, bruxas a perseguir e gente a abater. O mundo já teve dias mais gloriosos. E a humanidade já foi melhor reputada. Estamos vazios e doentes. E as redes sociais tornaram-se numa espécie de escarrador de ódios. Dispenso esses lugares mal frequentados. Do que resta dum faroeste vergonhoso. Que não nos anima, que não nos pode interessar. Que deveria ajudar-nos a olhar com novos olhos para o mundo à nossa volta. Porém, âncoras velhas puxam as mentes fechadas para o isolacionismo, rondam as insistências folclóricas, e anunciam pesadelos que mancham o futuro. A intolerância grassa como uma praga. E o ódio prevalece. Esta geração de pure haters o que fez pelo mundo para além do saco de lixo colocado ao domingo na reciclagem?