Cláudia Cardoso

Levantar o véu

A contaminação dos solos envolventes à Base das Lajes, derivada da presença americana, é um facto irrefutável. E antigo. Mas tal não significa que esta esteja diretamente relacionada com a incidência de cancros no concelho. Aí entramos já no domínio da extrapolação. O alarmismo injustificado, e pior, perigoso, da comunicação social, levou o assunto ao extremo do que é aceitável. E, pior, corre o risco de transformar a ilha num lugar perigoso e repulsivo. Porém, em primeiro lugar está a necessidade urgente de descontaminação. Que é conhecida pelos sucessivos estudos feitos, e pelos diversos relatórios do LNEC que identificam as zonas contaminadas, o tipo de contaminantes e as medidas necessárias. Falta, portanto, exigir que os americanos tomem medidas incisivas e sistemáticas, de forma continuada e abrangente, como aconteceu aliás noutros pontos do planeta em situações semelhantes. Pelo menos desde 2008 que se definiu a necessidade de intervenção e limpeza das áreas poluídas. Mas cabe aos Estados Unidos da América, enquanto entidade que usufrui das instalações concedidas pelo Estado Português à sua Força Aérea há mais de 60 anos, a responsabilidade pela descontaminação. Os Governos devem exigir essa responsabilização. Mas há engulhos neste processo, que os americanos souberam aproveitar, como a falta de uma base jurídica clara no Acordo. Certo é que a descontaminação existente é insuficiente para resolver o problema de forma estrutural. Como se fizéssemos sucessivos remendos num tecido roto. E fica muito aquém do necessário para descontaminar de forma efetiva e irreversível. A atenção política e diplomática sobre este assunto é interessante, mas tem um lado oculto evidente. Abre a caixa de Pandora de um destino turístico que se afirma e que pode ficar manchado pelo alarmismo, desnecessário por enquanto, que se tem vindo a promover à volta deste assunto. Pelos de lá, é certo, e pelos de cá também.