Cláudia Cardoso

No reino do afeto

No mundo em que vivemos dir-se-ia que o afeto é prescindível. Nunca como agora estivemos, teoricamente, tão acompanhados. Com informação na ponta dos dedos pela internet, com os familiares espalhados pelo mundo a um clique no Skype, com a possibilidade de nos conectarmos com milhares de pessoas através do whatsapp. Porém, neste mundo que nos aproximou numa pequena caixinha que nos cabe na palma da mão, a doença do século é a depressão, e a epidemia mais visível a solidão. E esta, começa a ser agora cientificamente comprovado, encolhe e faz mirrar. Definha a agilidade mental e enclausura-nos sem grades. Talvez seja o mundo em que vivemos o responsável por este desespero. As conquistas que alcançámos. A independência laboral feminina. O mundo de trabalho opressivo e rotineiro. A crónica falta de tempo. O stress de que todos, em graus diferentes, padecemos. O que o mundo atual nos deu foi também esta proverbial falta de tempo que nos aprisiona numa vida que não escolhemos necessariamente ter. Mas que levamos. Num país com tendências mais catastróficas do que apolíneas ter um Presidente da República como Marcelo Rebelo de Sousa é um bálsamo. Na recente visita aos Açores, em que visitou sete das nove ilhas, fez um périplo da afetividade, granjeando a simpatia dos raros casos que ainda não a tinham. Encantou a Região também. Porque as pessoas sentem genuinidade no exercício do mais alto cargo da nação. E porque contrasta ferozmente com o seu antecessor. Marcelo é um sedutor. Sabe perfeitamente como quer ser recordado. E fez dessa imagem o espelho da sua conduta. Não fez política pura e dura, mas contatou com o povo de forma muito próxima e interessada. E deixou essa marca, a de que a política pode ser feita com afetividade. Da que interessa. Da que não posa apenas para a fotografia. Da que sabe que há um dia depois. E outro a seguir. E de que um cargo é só isso mesmo. Um cargo. E de que há vida muito para além disso.

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