Cláudia Cardoso

O regresso do passado

Gosto muito do Brasil, por razões afetivas e outras. Surpreende-me sempre a doçura daquela gente e a sua forma de abraçar, comovida, a vida. O meu amor vai da música à literatura, e àquele “jeito franco de ser”. A musicalidade dos corpos, o humor com que olham a vida, mesmo depois de todos os revezes. E mesmo no ódio ao português colonizador tem o seu quê de romântico. Por isso me custa tudo isso, como se fosse comigo. E é connosco. O Brasil prepara-se para eleger Jair Messias Bolsonaro. A filiação é irónica também. Um voto de protesto gigantesco contra o PT de Lula da Silva e de Dilma Rousseff. A figura assustadora de Jair acumula 30 anos como deputado, não se poderá dizer, portanto, que não provenha da classe política, e cultiva um perfil de ditador assumido. Apologista da violência, adepto do fuzilamento, menoriza a tortura como forma de coação, homofóbico, machista, racista. Poderíamos colecionar mais uns quantos adjetivos deste calibre, e ainda assim ficaríamos aquém da descrição completa de tão abjeta figura. O mundo vai-se tornando nisto. Primeiro foi a eleição improvável de Trump em 2016 que veio espantar o mundo. Porém, Bolsonaro tem um perfil ainda mais macabro e circunstâncias mais favoráveis a que tudo isso descambe num pântano social de graves proporções. De forma estratégica sente a pulsação do povo. O crime que grassa, a corrupção no meio policial, a violência gratuita e quotidiana. E o candidato fala-lhe ao coração. Diz que vai acabar com a violência, que matará os criminosos, prenderá os corruptos, onde inclui o seu adversário do PT, Haddad, e na deriva colhe muitos seguidores. Nem todos os seguidores de Bolsonaro são fascistas, nem todos suportam a ditadura, muitos foram antes votantes e apoiantes do PT, são gente da classe média, desesperada por equilíbrio. Por um país disciplinado e com regras. O que tomamos como garantido todos os dias é, para eles, em muitos setores, uma simples miragem. Esperemos que domingo se faça mais luz sobre o Brasil do que as trevas das sondagens denunciam hoje.

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