Cláudia Cardoso

Quando errar é desumano

Sou, por defeito de profissão, colecionadora de erros. A gramática, espécie de ortodontia da língua, não sendo a minha disciplina favorita, sempre me fascinou e interessou. O conhecimento da utilização correta da Língua é absolutamente essencial à comunicação. Infelizmente, no tempo da sobrevalorização da imagem, poucos são os que se preocupam com a nódoa verbal. O pivot do telejornal a assinalar que se assinaram os “protocóis”, o repórter entusiasmado com a “aderência” das pessoas ao concerto, ou o rodapé da SIC a gritar a plenos pulmões que o incêndio deflagrou “de traz” do palco, são exemplos desta incúria linguística. Um dos exercícios mais angustiantes é a ementa dos restaurantes. Amêijoas à “Bolhão Pato”, “escabexe”, ou “marinhada” são petiscos convidativos, mas que me tiram a fome. Gostava de ser indiferente ao erro. Mas não consigo. O erro assalta-me e incendeia-me os olhos. Deixa-me obcecada. Se opto por chamar a atenção do responsável remetem para uma gralha. Porém, a profusão de erros na mesma página da ementa, desmente-os. Já nem falo dos erros de sintaxe e de pontuação. Técnicos superiores a escreverem “vou lha dar”; ou não “exite em contatar-me”; responsáveis políticos a tomarem nota da necessidade de se “entregar há população o poder de decisão”; jornalistas a escreverem que “tudo isso tem haver”. Para não se falar da insistente confusão entre “usa-se” e “usasse”. Não há nada mais inestético do que uma pessoa que não sabe usar a Língua que supostamente domina. É como se espirasse a cada calinada. Também eu tenho dúvidas, mas pesquiso pelo esclarecimento. E não me venham dizer que o conteúdo é que importa. É a forma o que vemos primeiro. Se esta é má, lá se vai o conteúdo. Por mais interessante que possa ser. É tempo de aplicar a ortodontia à Língua mãe. Pobremente tratada. Sendo para alguns a única que dominam, façam-no bem.

claudia.cardoso9@gmail.com