Fátima Rosado

A tropa deles e a minha

A tropa deles e a minha A tropa deles e a minha

Eu sei quase tudo sobre tropa. Duvidam? É como se eu tivesse feito o serviço militar. No tempo da guerra colonial todos os jovens homens, da minha família, incluindo o meus três irmãos, foram à tropa. Toda esta vivência na minha adolescência e juventude deu-me um know-how sobre o assunto tropa, que nem calculam! Sim, fui madrinha de guerra duma data de rapazes, escrevi centenas de aerogramas, vi chegar amigos mortos, primos com estilhaços no corpo, ouvi as mães e namoradas chorarem, rezarem, desesperarem, enfim, vivemos um tempo de horror. Os meus irmãos, por um bambúrrio de sorte, que eu não sei explicar, não foram mobilizados para as colónias. Eles odeiam que eu diga que foi “sorte” - como têm a mania que são “bons” e como não tinham cunhas, acham que foi mesmo um esforço árduo, para ficar bem classificado, e, por isso, não foram “lá para fora”. E replicam: não eras tu que dizias, que antes querias um irmão vivo do que um herói morto? Portanto, e apesar de odiar este assunto tropa, o tema é frequente entre nós - fala-se, por exemplo, do primo António P., que foi dos primeiros a ir para Angola e que voltou com “stress pós traumático”, quando ainda nem existia esse diagnóstico, do irmão, o Urbano, que, na Guiné, foi vítima do rebentamento duma mina e tem, ainda hoje, essas dolorosas marcas, e daquele rapaz que veio tetraplégico e morreu, etc, etc.
Tenho para mim, que a tropa, para aqueles que a fizeram, e, sobretudo, para os que estiveram na guerra colonial, foi um laço de união tão forte, ou talvez mais forte ainda, do que os laços de sangue. Deve ser por isso que a maior parte dos ex- combatentes se reúne e convive, em almoçaradas e fins de semana. Então é vê-los chegar, mais ou menos cinquentões, mais ou menos carecas, mais ou menos barrigudos, mas cheios de entusiasmo e de saudades. Abraçam-se, dão grandes palmadas nas costas uns dos outros e trocam os álbuns de fotografias (a preto e branco), fotografias vagamente parecidas com eles, sim, de quando éramos todos tão jovens, magros, garbosos e sonhadores. Os álbuns passam de mão em mão e ao olharem as fotografias, relembram aventuras (as que se podem contar, claro), e falam dos dias duros da recruta, dos levantamentos de rancho, dos rebentamentos das minas, das armas que dispararam, das que não dispararam e se encravaram, do comandante prepotente, do sargento lateiro, do furriel porreiro, dos que já morreram, dos que enlouqueceram, da vontade que têm voltar a África, dos que já lá voltaram, das populações, da miséria. Falam também da vida actual, do emprego, dos filhos, das doenças, dos sonhos perdidos, enfim, a conversa flui como se tivessem estado juntos no dia anterior.
Estão a ver como sei “muito” sobre a tropa!