José Eliseu

As claques

Porque eu entendo o futebol como escola de virtudes, porque amo o fair-play, porque defendo a presença massiva das famílias nos campos e porque sou desportista é que sou visceralmente contra a existência de claques nos moldes actuais.  

As claques As claques

 

 

Quase desde os seus primórdios, o futebol é um desporto que desperta muitas paixões. O aparecimento em catadupa de agremiações desportivas foi a gestação para o nascimento das mais variadas falanges de apoio. As hostes foram inicialmente agrupadas conforme a origem do clube. No Reino Unido, por exemplo, os judeus londrinos fundaram o Tottenham, os operários duma fábrica de armamento o Arsenal ou os metalúrgicos o West Ham. Em Glasgow, na Escócia, os católicos enrouquecem no apoio ao Celtic enquanto as cordas vocais dos protestantes debitam decibéis nos jogos do Rangers.

À medida que o futebol se impôs como modalidade rainha entre os europeus e nos locais por eles colonizados, foi-se alargando o leque de prosélitos. Tornou-se uma modalidade transversal a todos os sectores da sociedade e conseguiu transpor fronteiras aristocráticas.

O rendimento técnico-táctico dos futebolistas, tal como de todos os atletas em geral, depende das vertentes física e psicológica. Nesta última assume particular importância o apoio dos adeptos que transforma o factor “casa” num handicap muitas vezes decisivo para as equipas anfitriães.

É neste contexto que surgem os clubes de fãs e as claques e por degenerescência os hooligans. Os fãs são normalmente caçadores de autógrafos ou admiradores obsessivos de determinados jogadores ou técnicos. Os hooligans são delinquentes que usam as hordas que vão ao futebol para expandirem a sua única vocação: a violência. As claques são grupos organizados criados com um único objectivo: aplaudir a equipa do seu coração. Mas será que as claques respeitam a etimologia e cumprem esse nobre desígnio? Não! Em Portugal, foram os indefectíveis do Sporting quem formou a primeira claque organizada, em 1976, com o acrónimo Juve Leo. Foi a primeira semente para a propagação do fenómeno no desporto português. Os dirigentes patrocinam estes grupos em nome do apoio constante aos jogadores, não se apercebendo que eles contribuem em grande parte para o absentismo ao futebol. Isto porque nestes núcleos de apoiantes não cabem os moderados, os racionais. Só os extremos funcionam: histeria nas vitórias e fúria nas derrotas. Os seus membros entram para os recintos desportivos normalmente com os fígados saturados de álcoois e às vezes com substâncias alucinogénicas no sangue, munidos de artigos potencialmente mortíferos, como sejam tochas ou very lights, publicitando símbolos políticos de extrema-direita, entoando cânticos censuráveis e usando os membros superiores para todo o tipo de obscenidades. Viram as costas ao jogo e sentem-se atraídos pelo confronto com os homólogos da equipa adversária. À conta disso, por exemplo, trinta e nove vidas foram ceifadas na final da Taça dos Campeões Europeus de 1985, em Heysel Park, em Bruxelas.

Porque eu entendo o futebol como escola de virtudes, porque amo o fair-play, porque defendo a presença massiva das famílias nos campos e porque sou desportista é que sou visceralmente contra a existência de claques nos moldes actuais.